Um padeiro de 34 anos, identificado apenas como Baker, perdeu a perna direita após um tratamento realizado por um bonesetter (curandeiro de ossos) na cidade de Onitsha, no sudeste da Nigéria. O profissional amarrou a perna do paciente a um ventilador de teto ligado na velocidade máxima, na tentativa de 'esticar' e realinhar o fêmur fraturado. O resultado foi a avulsão de tecidos, necrose e amputação em um hospital público dias depois.
O caso ganhou repercussão internacional depois que o padeiro concedeu entrevista ao jornal local Punch, afirmando que foi 'enganado por um homem que se dizia curador'. A fratura original, causada por um acidente de moto, poderia ter sido tratada com cirurgia ortopédica convencional por menos de 300 dólares. Baker, no entanto, optou pelo curandeiro por ser 80% mais barato e por 'desconfiar dos hospitais modernos'.
A Nigéria possui um dos maiores índices de uso de medicina tradicional do mundo: cerca de 80% da população recorre a curandeiros, segundo a Organização Mundial da Saúde. O país não exige registro formal, certificação ou seguro de responsabilidade para bonesetters. Eles operam em um mercado completamente desregulado, onde a reputação é o único ativo — e mesmo assim, falha.
Baker poderia ter sido salvo por uma simples regra de livre mercado: a obrigatoriedade de contratos de resultado ou a existência de um seguro obrigatório vinculado à prática. Sem isso, o paciente não tem recurso legal além de processos civis morosos e caros. O curandeiro, que fugiu após o incidente, nunca foi preso ou multado.
Por que isso importa: a tragédia de Baker não é um acidente isolado. É a consequência lógica de um sistema onde o Estado falha em prover o ambiente institucional mínimo para que o mercado de saúde funcione. Liberais defendem que o Estado não deve intervir na escolha do paciente, mas deve garantir que provedores de serviços sejam responsabilizados por danos. Sem licenciamento, sem fiscalização, sem seguro — o 'livre mercado' vira terra de ninguém.
Análise FORTIS: o caso expõe a diferença entre liberdade econômica e anarquia sanitária. Em um verdadeiro mercado livre, o bonesetter teria que oferecer garantias contratuais explícitas, como cláusulas de reembolso em caso de falha, ou estaria sujeito a ações de responsabilidade civil com danos punitivos. A ausência de um sistema de propriedade intelectual (que permitiria a criação de marcas e reputações verificáveis) e de um judiciário ágil transforma o 'barato' em caro — Baker pagou com a perna.
A solução liberal clássica não é proibir curandeiros, mas sim criar mecanismos de certificação voluntária e seguros obrigatórios. Em países como os EUA, mesmo terapeutas alternativos precisam de licenças estaduais e seguro de malpractice. Na Nigéria, a falta dessas instituições faz com que o mercado de saúde tradicional seja um vale-tudo onde o mais fraco — o paciente — perde.
Contraponto: defensores da medicina tradicional argumentam que a cultura e a acessibilidade financeira justificam a prática. 'Muitos nigerianos não têm dinheiro para hospitais modernos', disse ao FORTIS o Dr. Chibueze Okafor, antropólogo médico. 'Proibir os bonesetters deixaria milhões sem nenhum acesso a cuidados.' O argumento tem mérito: a renda média na Nigéria é de 2.000 dólares anuais, e uma cirurgia ortopédica custa o equivalente a dois meses de salário. No entanto, a solução não é manter um sistema que mata, mas sim expandir o acesso a seguros de saúde privados e microsseguros, como já ocorre em países como a Índia e o Quênia.
O governo nigeriano, pressionado pelo caso, anunciou que estuda criar um registro nacional de bonesetters e exigir treinamento básico em primeiros socorros. A medida é tímida: sem responsabilização civil, continuará sendo letra morta. Baker, agora amputado, tenta juntar dinheiro para uma prótese. O curandeiro, que atendia em uma loja sem placa, simplesmente mudou de cidade e continua a operar.
Por Renan Filho · 2026-09-19