Motoristas de minibus que operam nas rotas urbanas e interurbanas do estado de Osun, sudoeste da Nigéria, interditaram as principais vias de acesso a cidades como Osogbo, Ife e Ilesa, nesta quarta-feira, 23 de setembro de 2026. O protesto, convocado por associações locais de transportadores, tem como alvo dois problemas centrais: a escalada do preço da gasolina (PMS) — que já ultrapassa 1.200 nairas por litro no mercado paralelo — e a suspeita de má gestão das receitas das tarifas (ticket proceeds) por parte de líderes sindicais e funcionários do governo estadual.
Segundo relatos de motoristas à imprensa local, como o portal The Punch e a rádio OSBC, a paralisação afeta cerca de 80% das linhas de minibus na região. “Não dá mais para trabalhar. O diesel está a 1.500 nairas, e a gasolina comum, a 1.200. As tarifas que cobramos são tabeladas pelo governo, mas o dinheiro dos tickets que recolhemos nos terminais some. Os líderes do sindicato compram carros novos enquanto a gente paga para trabalhar”, disse um motorista que pediu anonimato à emissora.
O contexto da crise remonta à política de remoção dos subsídios aos combustíveis iniciada pelo presidente Bola Tinubu em maio de 2023. Na época, o litro da gasolina saltou de 195 nairas para cerca de 617 nairas. Desde então, a desvalorização cambial e a dependência de importação de refinarias deterioradas — como a Refinaria de Port Harcourt, que opera a menos de 20% da capacidade — elevaram o preço real nas bombas para mais de mil nairas. O governo federal, por meio da NNPC (Nigerian National Petroleum Corporation), alega que não há oligopólio e que o mercado se ajustará, mas a inflação de transportes já ultrapassou 35% nos últimos dois anos, de acordo com o NBS.
**Por que isso importa**
O protesto em Osun não é um caso isolado. Em agosto, motoristas do estado vizinho de Oyo já haviam realizado manifestações similares. O setor de transportes na Nigéria é um termômetro da economia real: mais de 70% do transporte de passageiros e cargas depende de veículos movidos a combustíveis derivados de petróleo. Se os motoristas param, a cadeia de abastecimento de alimentos, medicamentos e insumos básicos entra em colapso. Além disso, a má gestão das tarifas — que deveriam ser revertidas em manutenção de terminais e controle de qualidade — revela a captura do sistema por burocratas e sindicalistas que se beneficiam do monopólio estatal sobre as rotas.
**Análise FORTIS**
A remoção dos subsídios foi uma medida correta do ponto de vista do livre mercado. Subsídios distorcem preços, geram déficits fiscais insustentáveis (a Nigéria gastava cerca de US$ 10 bilhões anuais com o subsídio à gasolina antes de 2023) e beneficiam desproporcionalmente as elites que controlam a logística de importação. No entanto, o governo Tinubu falhou grotescamente em dois pontos: não promoveu a desregulamentação real do setor de refino e não atacou a corrupção nas agências reguladoras.
A NNPC continua sendo uma estrutura monopolista estatal que, mesmo após a remoção do subsídio, mantém o controle sobre a importação e distribuição, impedindo a entrada de competidores privados. Refinarias privadas, como a Dangote Refinery, ainda enfrentam barreiras burocráticas e sabotagem regulatória para comercializar combustível a preços competitivos. Enquanto isso, os governos estaduais — incluindo Osun — usam a concessão de rotas de transporte como moeda de troca política, e os sindicatos agem como cartéis, extorquindo motoristas em nome de “taxas de garagem” e “contribuições para o bem-estar”.
A solução liberal-conservadora é clara: acabar com o monopólio da NNPC na importação, liberar totalmente o preço da gasolina (sem tabelamento estadual), permitir que qualquer empresa ou cooperativa de motoristas opere rotas sem licenças sindicais obrigatórias, e criar um fundo de compensação social direta — via transferência de renda — para os mais pobres, em vez de manter subsídios distorcidos. A má gestão das tarifas, por sua vez, só será resolvida com transparência digital: bilhetagem eletrônica e auditoria independente dos terminais.
**Contraponto**
Há quem argumente, como o senador da oposição Adamu Garba (APC), que a remoção dos subsídios foi apressada e sem rede de proteção. Em declaração à Rádio Kaduna, ele afirmou: “O governo trocou um subsídio ineficiente por uma inflação galopante. Os motoristas estão sendo esmagados, e a população paga o preço. Era preciso primeiro reabilitar as refinarias e criar empregos antes de abrir o mercado”. Esse argumento ignora que as refinarias estatais vêm sendo reformadas há décadas sem sucesso — um poço sem fundo de corrupção. O atraso só agrava o sofrimento dos que dependem de transporte diário.
Ademais, o protesto dos motoristas de Osun também tem endereço político local. O governador Ademola Adeleke (PDP) foi acusado por ativistas de usar a máquina sindical para arrecadar fundos de campanha. Documentos vazados em redes sociais sugerem que os valores das tarifas foram reajustados em 40% em julho, mas a melhora nos terminais não ocorreu. O governo estadual, em nota oficial, negou as acusações e prometeu investigar as denúncias de desvio.
Por Renan Filho · 2026-09-23