A Nigéria entrará em campo sem sua principal referência ofensiva. Victor Osimhen, artilheiro do Napoli na conquista do Scudetto 2022/23 e atualmente no Galatasaray, está fora dos compromissos das Super Águias nesta janela internacional. A notícia, confirmada pela federação nigeriana de futebol, reacendeu o debate sobre a dependência tática do selecionado em relação ao camisa 9.
O ex-volante Sani Kaita, que disputou as Copas de 2010 e 2014, não poupou palavras. Em declaração à imprensa nigeriana, Kaita classificou a ausência como "uma perda gigante" e afirmou que a equipe perde não apenas em gols, mas em presença de área e poder de intimidação. "Osimhen é o tipo de jogador que muda o plano de jogo do adversário", disse Kaita, em entrevista ao portal Brila FM.
A lesão muscular sofrida por Osimhen em partida recente pelo clube turco o tirou dos jogos das Eliminatórias Africanas. A Nigéria enfrentará adversários diretos na briga por vaga no Mundial de 2026, e a ausência do atacante reduz drasticamente o poder de fogo do time comandado pelo técnico interino. Sem Osimhen, a equipe deve apostar em Victor Boniface ou Terem Moffi, ambos bons jogadores, mas sem o mesmo impacto físico e técnico.
O problema, no entanto, vai além da escalação. A dependência de Osimhen expõe uma fragilidade estrutural do futebol nigeriano. O país, que já formou gerações de craques como Jay-Jay Okocha, Nwankwo Kanu e Rashidi Yekini, hoje não consegue produzir um elenco equilibrado. O investimento em categorias de base é baixo, a infraestrutura é precária e a gestão das federações locais é historicamente marcada por corrupção e ineficiência.
Enquanto isso, seleções como Marrocos e Senegal avançam com projetos de longo prazo, financiados por parcerias público-privadas e centros de treinamento modernos. A Nigéria, que deveria ser uma potência continental, continua refém de talentos individuais que surgem apesar do sistema, não por causa dele.
A ausência de Osimhen também tem impacto comercial. A camisa 9 é o principal ativo de marketing da seleção nigeriana, e sua presença em campo atrai patrocinadores e audiência. Sem ele, a Federação Nigeriana de Futebol perde força de negociação em contratos futuros. Em um país onde o futebol é a segunda religião, a gestão amadora custa caro — e o torcedor é quem paga a conta.
Do ponto de vista tático, o técnico interino precisará recompor o ataque. A tendência é que a Nigéria adote um esquema mais cauteloso, com menos pressão alta e mais jogo pelos lados. Isso pode até funcionar contra adversários de menor expressão, mas contra seleções como Camarões ou Costa do Marfim, a falta de um finalizador nato será sentida.
Kaita, que também atuou por clubes como Metalist e Monaco, lembrou que a Nigéria já perdeu Copas por desorganização interna. "Não é só sobre o Osimhen. É sobre o planejamento. Quando o jogador principal se machuca, o time precisa de alternativa. Hoje, não tem", afirmou o ex-atleta, em tom de crítica à gestão da bola na próxima rodada.
A análise do FORTIS NEWS é direta: a ausência de Osimhen é um sintoma, não a doença. A doença é a falta de um projeto sério para o futebol nigeriano, que continua dependendo de jogadores que se formam na Europa, longe de qualquer estrutura local. O país gasta mal, tributa demais e entrega pouco — e o esporte é um espelho dessa disfunção administrativa.
Contraponto: alguns analistas defendem que a Nigéria tem elenco suficiente para suprir a ausência, e que a pressão sobre Osimhen é exagerada. Eles citam a boa fase de Ademola Lookman, eleito o melhor jogador africano do ano, e a versatilidade de Samuel Chukwueze. O argumento tem mérito, mas não elimina o fato de que a seleção perde sua principal referência de área em um momento decisivo.
Se a Nigéria avançar nas Eliminatórias sem Osimhen, o mérito será do coletivo. Se fracassar, a diretoria terá que explicar por que um país com mais de 200 milhões de habitantes não consegue formar um time competitivo sem depender de um único jogador.
A expectativa agora é pela evolução da lesão do atacante. O Galatasaray, que o emprestou do Napoli, monitora o caso com cautela. O jogador, por sua vez, deve perder pelo menos três semanas de atividade. Para a Nigéria, resta torcer para que a ausência seja breve — e que a lição fique: estrelas brilham, mas quem sustenta o espetáculo é a estrutura. Sem ela, qualquer ausência vira crise.
O futebol nigeriano segue de olho no futuro, mas o presente já cobra um preço alto pela falta de planejamento.
Por Renan Filho · 2026-09-25