O tradicional governante do conselho tribal de Ibadan, Oba Owolabi Olakulehin, conhecido como Olubadan, fez um aposto público nesta quarta-feira (24) conclamando os jovens nigerianos a rejeitarem qualquer forma de violência política durante o ciclo eleitoral de 2027. Em declaração à imprensa local, o monarca enfatizou que a paz é condição indispensável para o desenvolvimento econômico e social do país.
“A violência política não tem espaço na Nigéria que queremos construir. Os jovens não devem ser usados como instrumentos de intimidação. Nosso futuro depende de eleições livres, justas e, acima de tudo, pacíficas”, afirmou o Olubadan, conforme nota oficial divulgada por seu gabinete.
A declaração ocorre em um contexto de escalada de confrontos entre grupos partidários nos estados do Sudoeste, especialmente em Oyo e Lagos, onde incidentes com armas brancas e explosivos improvisados foram registrados nos últimos meses. De acordo com dados do Instituto Nigeriano de Pesquisa em Conflitos (NICR), houve um aumento de 42% nos episódios de violência política entre 2023 e 2025, com pelo menos 87 mortes documentadas.
O governo federal, sob o presidente Bola Tinubu, tem enfrentado críticas por sua postura leniente diante da militarização de milícias partidárias. Em maio de 2025, o governo anunciou a criação de uma Força-Tarefa Especial para Prevenção da Violência Política, mas, até setembro de 2026, não haviam sido divulgados relatórios concretos de operações ou prisões.
POR QUE ISSO IMPORTA
A Nigéria é a maior economia da África e o país mais populoso do continente, com mais de 220 milhões de habitantes. Eleições pacíficas são fundamentais para a atração de investimentos estrangeiros e para a manutenção da estabilidade regional. O chamado do Olubadan, embora de natureza moral, reflete a frustração da sociedade civil com a incapacidade do Estado nigeriano em garantir segurança básica.
Para jovens que enfrentam desemprego que ultrapassa os 42% na faixa dos 18-34 anos (dados do Bureau Nacional de Estatísticas Nigeriano, 2025), a tentação de ingressar em grupos armados pagos por candidatos é real. O custo de oportunidade da violência, no entanto, é devastador: cada episódio de confronto político afasta empresas, eleva o prêmio de risco do país e reduz a geração de empregos formais.
ANÁLISE FORTIS
A declaração do Olubadan é um exemplo clássico de liderança moral que o Estado deveria exercer, mas não consegue. Enquanto governos africanos – e muitos latino-americanos – continuam a expandir o orçamento de segurança com resultados pífios, a violência política persiste porque as instituições são frágeis e a justiça, lenta. Na Nigéria, o gasto público com segurança saltou de 1,2 trilhão de nairas em 2020 para 2,8 trilhões em 2026 (orçamento federal), mas a sensação de impunidade permanece.
A solução não está em mais intervenção estatal, mas na redução do poder discricionário dos governos locais sobre a alocação de recursos que alimentam clientelismo armado. Um Estado mínimo e eficiente, focado em garantir leis e contratos, combinado com uma polícia descentralizada e accountable, teria mais condições de coibir a instrumentalização da juventude.
CONTRAPONTO
Críticos do Olubadan apontam que os próprios líderes tradicionais, em muitos casos, são cooptados por partidos políticos e perdem a isenção necessária para mediar conflitos. Em 2024, o Conselho de Chefes Tradicionais de Oyo foi acusado de receber doações de campanha do Partido Democrático Popular (PDP), o que gerou questionamentos sobre sua imparcialidade. Ainda assim, a fala do monarca tem peso simbólico e pode influenciar a opinião pública jovem, que consome amplamente conteúdos das lideranças comunitárias nas redes sociais.
Por Renan Filho · 2026-09-24