O governo do estado de Ogun, na Nigéria, anunciou o desembolso de 6 bilhões de nairas (cerca de R$ 40 milhões) destinados a 3.855 grupos de mulheres em todo o estado. A informação foi divulgada em publicação oficial nas redes sociais do governo, que classificou a medida como um passo para o empoderamento econômico feminino. A ação, segundo a nota, beneficiaria cooperativas e associações de mulheres dedicadas a pequenos negócios.
O valor, equivalente a aproximadamente 1,5 milhão de nairas por grupo, será repassado em parcelas, com suposto acompanhamento técnico. A decisão faz parte de um programa mais amplo de inclusão produtiva, mas não detalha critérios objetivos de seleção ou mecanismos de prestação de contas. Em um país onde o setor informal representa mais de 60% do PIB, a aposta em transferências diretas via burocracia estatal merece análise cautelosa.
Por que isso importa: a Nigéria enfrenta uma das piores crises de inflação da última década, com o naira desvalorizado e juros elevados. Nesse cenário, a destinação de recursos públicos para grupos organizados pode até gerar alívio de curto prazo, mas não ataca as causas estruturais da pobreza: a falta de segurança jurídica, a má infraestrutura e o excesso de tributos que sufocam pequenos empreendedores.
A iniciativa do governo de Ogun, embora tenha apelo social, reproduz o modelo assistencialista que historicamente mantém o cidadão refém do Estado. Em vez de investir pesado em reformas estruturais — como a desburocratização para abertura de empresas, a garantia de direito à propriedade e a redução da carga tributária —, o poder público distribui migalhas com a caneta. Isso não é liberalismo; é paternalismo com verniz de política pública.
A FORTIS NEWS reconhece a importância de apoiar mulheres em situação de vulnerabilidade. No entanto, a verdade factual é que programas de transferência de renda, sem contrapartidas claras e sem estímulo à autonomia financeira, tendem a criar dependência crônica. Dados do Banco Mundial indicam que países que adotaram políticas de empoderamento via microcrédito tiveram resultados melhores quando o setor privado liderou o processo, com juros de mercado e avaliação de risco — não quando o governo escolheu os vencedores.
Contraponto: defensores da medida argumentam que o programa de Ogun é uma forma de capitalismo popular, injetando recursos diretamente nas comunidades. Investimento em mulheres tende a ter efeito multiplicador na educação e na saúde dos filhos, o que é verdade. Porém, a questão central permanece: de onde virá o dinheiro? A Nigéria tem uma das maiores cargas tributárias informais da África, e o endividamento público já compromete quase 30% da receita do país com juros.
A medida ainda levanta um problema prático: como fiscalizar a aplicação de 6 bilhões de nairas em 3.855 grupos sem uma estrutura robusta de auditoria? A experiência brasileira, por exemplo, mostra que programas de microcrédito estatal frequentemente viram cabide de empregos e palco de desvios. Se Ogun quer de fato gerar desenvolvimento, deveria criar um ambiente de negócios onde as mulheres não precisem do Estado para sobreviver — mas sim onde possam empreender sem sufoco.
Por Renan Filho · 2026-09-24