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Economia

Apagão sem fim: como o monopólio estatal e a falta de reformas mantêm a Nigéria na escuridão

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

Enquanto o governo nigeriano anuncia bilhões em subsídios e promessas, a população enfrenta uma média de 9 horas de apagão por dia. A raiz do problema não é falta de investimento, mas um modelo de mercado engessado que afasta o capital privado e protege ineficiências.

A Nigéria, maior economia da África e um dos maiores produtores de petróleo do mundo, vive um paradoxo energético que já dura décadas. Com uma capacidade instalada de cerca de 13.000 megawatts (MW), o país raramente consegue gerar mais de 4.000 MW para sua população de mais de 220 milhões de habitantes. O resultado é uma crise crônica de eletricidade que sufoca indústrias, pequenos negócios e a vida cotidiana de milhões de nigerianos.

O governo do presidente Bola Tinubu, empossado em maio de 2023, prometeu uma revolução no setor. Em publicação nas redes sociais, o Ministério do Poder anunciou em setembro de 2026 a conclusão de novas subestações e a expansão da rede de transmissão, com investimentos de 1,5 bilhão de dólares financiados por bancos multilaterais. A mensagem oficial é de que a luz está chegando. Os dados, no entanto, contam uma história diferente.

De acordo com o relatório mais recente da Agência Nacional de Estatísticas da Nigéria (NBS), divulgado em agosto de 2026, 68% das empresas nigerianas listam a falta de eletricidade confiável como o principal obstáculo para fazer negócios. O custo anual estimado com geradores a diesel e gasolina para o setor privado ultrapassa os 14 bilhões de dólares. Na prática, a Nigéria paga duas vezes pela energia: uma na conta de luz e outra na compra de combustível para geradores.

**Por que a reforma de 2013 não funcionou**

Para entender o fracasso atual, é preciso voltar a 2013. Naquele ano, o governo nigeriano realizou a privatização do setor elétrico, vendendo as empresas de geração e distribuição que antes pertenciam à estatal Power Holding Company of Nigeria (PHCN). A ideia era liberalizar o mercado e atrair investimento privado. O resultado, porém, está longe do esperado.

O problema central foi o desenho regulatório. O governo manteve o controle sobre a tarifa final cobrada do consumidor, congelando-a em níveis artificialmente baixos por anos. Ao mesmo tempo, as empresas distribuidoras (Discos) são obrigadas a comprar energia das geradoras (Gencos) a preços tabelados, mas não conseguem repassar os custos reais aos consumidores. O resultado é um rombo financeiro que a agência reguladora NERC estima em 3,2 bilhões de dólares em dívidas acumuladas das Discos com as Gencos.

Em declaração à imprensa em junho de 2026, o diretor-executivo da Associação Nigeriana de Geradores de Energia Elétrica (NAEE), Joy Ogaji, afirmou que “o setor está tecnicamente falido. As geradoras produzem muito abaixo da capacidade porque as distribuidoras não pagam, e as distribuidoras não pagam porque o governo não permite tarifas que cubram os custos”. A declaração expõe um ciclo vicioso: sem receita, as Discos não investem em manutenção e modernização, o que piora a qualidade do serviço e reduz o número de consumidores dispostos a pagar.

**O peso do gás e da burocracia**

A Nigéria possui a nona maior reserva de gás natural do mundo. Cerca de 70% da eletricidade gerada no país vem de termelétricas a gás. No entanto, a infraestrutura de gasodutos é precária e as empresas de gás frequentemente interrompem o fornecimento por falta de pagamento ou por sabotagem. Em 2025, a estatal Nigerian National Petroleum Company (NNPC) admitiu que o fornecimento de gás para usinas elétricas caiu 30% em relação ao ano anterior.

Além disso, o ambiente de negócios continua hostil ao investimento privado. O Banco Mundial, no relatório “Doing Business” (embora descontinuado, seus indicadores ainda são referência), colocava a Nigéria na 131ª posição entre 190 países no quesito “obtenção de eletricidade”, com um processo que exige 12 etapas e uma média de 130 dias para conectar um novo consumidor à rede. Para uma empresa que precisa de energia imediata, o custo de espera é insustentável.

**Análise FORTIS: o remédio que ninguém quer tomar**

A solução para o apagão nigeriano não é técnica, é política. O governo Tinubu, que iniciou reformas corajosas como a eliminação do subsídio aos combustíveis em 2023, recuou no setor elétrico. A promessa de tarifas baseadas no custo real foi adiada repetidas vezes por medo de reação popular. Em maio de 2026, o governo anunciou um novo subsídio de 200 bilhões de nairas (cerca de 260 milhões de dólares) para manter as tarifas congeladas para 75% dos consumidores residenciais.

Sob a ótica liberal-conservadora, o erro é duplo. Primeiro, o subsídio não resolve o problema; apenas transfere o custo para o contribuinte e mantém as empresas ineficientes respirando por aparelhos. Segundo, ele desestimula a entrada de capital privado em geração distribuída (painéis solares, pequenas redes) e em eficiência energética, que seriam as soluções naturais para um país com um dos maiores índices de irradiação solar do mundo.

Dados da Associação Nigeriana da Indústria Solar mostram que, mesmo sem subsídios, a energia solar fotovoltaica já é mais barata que o diesel para uso comercial em muitas regiões. No entanto, barreiras regulatórias e a falta de financiamento acessível impedem uma adoção em massa. O governo insiste em apostar em grandes projetos centralizados, que exigem investimentos bilionários e anos de construção, quando a solução mais rápida e barata seria desregulamentar o mercado de microgeração e permitir que cada consumidor, empresa ou comunidade produza sua própria energia.

**Contraponto: a visão estatista**

Defensores do modelo atual argumentam que a privatização foi mal feita e que o Estado precisa retomar o controle. O senador Gabriel Suswam, do estado de Benue, em entrevista à Rádio Nigéria em agosto de 2026, defendeu a reestatização do setor, afirmando que “as empresas privadas só querem lucro e não investem em áreas rurais”. O argumento ignora que, sob controle estatal, a PHCN nunca conseguiu gerar mais de 3.000 MW de forma consistente. A estatal era conhecida por corrupção, falta de manutenção e um quadro de funcionários inchado.

O que os defensores do monopólio estatal não explicam é por que o governo, que já controla a transmissão (através da TCN) e a regulação (NERC), não consegue fazer o básico: garantir que a energia gerada chegue ao consumidor. As perdas técnicas e não técnicas (furto de energia) na transmissão e distribuição chegam a 45%, um dos índices mais altos do mundo. Enquanto não houver responsabilização fiscal e contratual, nem estatal nem privado funcionará.

**1. A energia solar pode realmente resolver o problema da Nigéria?**

Sim, em grande parte. A Nigéria recebe uma média de 5,5 kWh/m² de radiação solar por dia, o que torna a energia solar fotovoltaica viável em praticamente todo o território. Sistemas off-grid e minirredes podem atender comunidades rurais e urbanas sem depender de uma rede nacional frágil. O que falta é vontade política para eliminar tarifas de importação sobre painéis solares, criar linhas de crédito acessíveis e permitir que consumidores vendam o excedente de energia para a rede a preços de mercado.

**2. O que o governo Tinubu deveria fazer para resolver a crise?**

Três medidas seriam transformadoras: (1) implementar tarifas baseadas no custo real, com subsídios diretos e temporários apenas para consumidores de baixa renda, acabando com o subsídio generalizado; (2) privatizar completamente o setor de transmissão, hoje um gargalo estatal, e permitir que o capital privado construa e opere linhas de transmissão; (3) desregulamentar a geração distribuída, eliminando barreiras para instalação de painéis solares e pequenas redes. Sem essas reformas, a Nigéria continuará sendo a maior economia do mundo a viver no escuro.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.