O governo federal da Nigéria, liderado pelo presidente Bola Tinubu, está em conversações avançadas com empresas alemãs para injetar capital e tecnologia na decadente indústria siderúrgica do país. A informação foi confirmada pelo ministro do Comércio e Indústria, Doris Uzoka-Anite, em declaração à imprensa nesta quarta-feira, 25 de setembro de 2026, durante a Cúpula Econômica Nigéria-Alemanha realizada em Abuja.
Segundo Uzoka-Anite, as negociações envolvem, entre outros, o grupo Thyssenkrupp e a Outokumpu, interessados em parcerias público-privadas para reativar a usina siderúrgica de Ajaokuta, localizada no estado de Kogi. O projeto, concebido nos anos 1970, já consumiu mais de 10 bilhões de dólares em recursos públicos sem nunca ter entrado em operação plena, um símbolo do fracasso do modelo estatal na África.
A proposta prevê que o governo nigeriano ofereça incentivos fiscais, garantias de infraestrutura e acesso a minério de ferro de baixo custo, enquanto as empresas alemãs aportariam tecnologia, gestão e capital de giro. Em troca, a Nigéria espera gerar empregos, reduzir a importação de aço — que atualmente consome cerca de 4 bilhões de dólares anuais em divisas — e impulsionar a industrialização do país.
**Por que isso importa**
A Nigéria possui a maior reserva de minério de ferro da África Ocidental, estimada em 3 bilhões de toneladas, e um mercado doméstico sedento por aço para construção civil, petróleo e gás, e infraestrutura. No entanto, a produção local é ínfima — menos de 2 milhões de toneladas em 2025, segundo dados do Banco Central da Nigéria —, enquanto a demanda ultrapassa 10 milhões de toneladas. Essa lacuna é preenchida por importações caras, muitas vezes de países como China e Turquia.
Para um governo que se autointitula liberal e reformista, a aposta em parcerias com empresas alemãs parece coerente. Tinubu, desde que assumiu em 2023, removeu subsídios aos combustíveis e unificou a taxa de câmbio, medidas aplaudidas por economistas de livre mercado. Agora, ao invés de nacionalizar ou injetar dinheiro público diretamente em estatais falidas, ele busca capital privado estrangeiro para fazer o que o Estado nunca conseguiu.
**Análise FORTIS**
Do ponto de vista liberal-conservador, atrair investimento produtivo estrangeiro é sempre bem-vindo. Empresas alemãs como Thyssenkrupp têm décadas de know-how em siderurgia e rigor de gestão que o Estado nigeriano jamais demonstrou. O erro histórico de Ajaokuta foi justamente a aposta em contratos superfaturados e gestão política, com o governo assumindo riscos que o setor privado jamais aceitaria.
No entanto, há dois pontos que merecem ceticismo. Primeiro, a tentação do governo de oferecer subsídios e garantias excessivas. Em publicação nas redes sociais, o economista nigeriano e ex-conselheiro econômico Obi Ikwueme alertou que “incentivos fiscais generosos podem se tornar uma nova forma de transferência de renda do contribuinte para corporações estrangeiras, sem contrapartida real de produtividade”. Se o governo ceder a essa pressão, estará repetindo o erro do paternalismo estatal, só que agora com roupagem de parceria público-privada.
Segundo, o risco de enfraquecer a soberania industrial. A Nigéria já depende de tecnologia e capital externo para quase tudo. Se a siderurgia for totalmente controlada por grupos alemães, as decisões estratégicas — como preço do aço no mercado doméstico, prioridade de suprimento para a indústria local — ficarão sujeitas aos interesses comerciais de Berlim e não a Abuja. Um país que aspira a ser potência regional não pode abrir mão de setores críticos sem contrapartidas claras de transferência de tecnologia e participação acionária nacional.
**Contraponto**
Defensores da iniciativa, como o senador Gbenga Ashafa (partido governista APC), argumentam que “sem capital estrangeiro, a siderurgia nigeriana continuará morta. Preferimos uma participação alemã controlada a um cemitério de dinheiro público”. O raciocínio tem lógica: o Estado já provou ser incapaz de gerir a cadeia. Mas a pergunta que fica é: por que a iniciativa privada nigeriana — os mesmos empresários que prosperam em bancos, telecomunicações e petróleo — não conseguiu ocupar esse espaço? A resposta está no ambiente de negócios hostil: insegurança jurídica, infraestrutura precária, corrupção e burocracia.
Se o governo quer realmente atrair investimento, deveria começar limpando a casa: reforma do sistema judiciário, combate à extorsão alfandegária e construção de estradas e portos. A Alemanha não virá salvar a Nigéria; virá porque enxerga lucro. E se o lucro depender de subsídios estatais, não será investimento genuíno, e sim uma nova forma de dependência.
**1. O governo nigeriano já tentou parcerias similares no passado?** Sim. Em 2020, o governo de Muhammadu Buhari assinou um memorando com a empresa indiana Jindal Steel para reativar Ajaokuta, mas o acordo naufragou após desentendimentos sobre royalties e controle acionário. Também houve negociações com a russa Severstal em 2022, que não avançaram devido a sanções e instabilidade cambial. O histórico sugere que, sem um ambiente de negócios previsível, até empresas experientes desistem.
**2. Qual o papel da Alemanha nesse contexto?** A Alemanha tem interesse geopolítico em diversificar suas fontes de aço, reduzindo a dependência da Rússia e da China, especialmente após a guerra na Ucrânia. Para a Nigéria, o selo alemão traz credibilidade para atrair outros investidores. No entanto, Berlim também exigirá transparência e compliance ambiental e trabalhista, o que pode ser um trunfo para modernizar a indústria local — desde que o governo nigeriano não tente contornar as regras com exceções.
Por Renan Filho · 2026-09-25