A Nigéria amanheceu esta terça-feira dividida entre duas realidades: a alta cúpula do partido governista, All Progressives Congress (APC), tenta conter um racha cada vez mais profundo entre o ministro do Território da Capital Federal, Nyesom Wike, e governadores aliados — enquanto o preço da gasolina finalmente começa a cair nos postos, após movimentos concorrenciais da refinaria de Dangote e das distribuidoras.
Os dois fatos não são coincidência. São sintomas do mesmo mal: um Estado que quer controlar tudo, do partido ao barril de petróleo, e um mercado que, quando deixado respirar, entrega resultado.
No plano político, a crise é pública e ruidosa. Integrantes do Comitê de Trabalho do APC, em publicação nas redes sociais, admitem que o impasse entre Wike e os governadores ligados ao partido atingiu um nível de paralisia preocupante. O pano de fundo é a sucessão no comando do partido e a disputa por indicações para o próximo gabinete ministerial.
Wike, que controla a máquina do partido em Rivers, respaldado por alianças no alto escalão, tem sido acusado por governadores de usar o cargo para centralizar decisões e retaliar dissidências internas. Em declaração à imprensa local, um governador sob condição de anonimato classificou a atitude do ministro como "política do medo, não de coalizão".
A briga é mais do que vaidade. É a lógica do poder pelo poder. O APC, que nasceu como frente ampla contra o statismo do PDP, hoje repete o vício de todos os partidos hegemônicos na África: confundir Estado com partido, e partido com governante.
Enquanto isso, no setor de combustíveis, o mercado dá uma aula prática de como resolver o problema sem comitê, sem decreto e sem controle de preços.
A refinaria de Dangote, maior do continente, anunciou nova redução no preço de ex-refinaria, seguida por grandes distribuidoras como a 11 Plc e a TotalEnergies. Em Lagos, postos autorizados já vendem a gasolina abaixo do teto anterior, e consumidores relatam filas menores — não por racionamento, mas por oferta.
O movimento é consequência direta da desregulamentação parcial do setor promovida no início do governo Bola Tinubu, que removeu o subsídio e permitiu que o preço flutuasse conforme a oferta e a demanda.
A queda de preço reforça o que economistas liberais vêm dizendo há décadas: subsidiar combustível, como faziam os governos anteriores, não era ajudar o pobre — era financiar o contrabando, a burocracia e a ineficiência. Quando o preço é tabelado pelo Estado, falta produto. Quando o preço é definido pelo mercado, sobra eficiência.
Os críticos de esquerda e setores do próprio APC que pedem o retorno do controle estatal de preços, citando o receio de inflação e impacto no transporte, ignoram um dado central: a inflação alimentar na Nigéria caiu dois meses consecutivos, em parte pela redução dos custos logísticos.
É claro que a queda atual é tímida e pode não ser sustentável se o governo voltar a interferir na formação de preços ou se a instabilidade política afugentar investidores. Mas o sinal é claro: o caminho da prosperidade nigeriana passa por menos Estado na economia, não por mais controle partidário sobre a vida nacional.
A crise no APC, nesse contexto, é um alerta para o palácio. Se a elite política não resolve suas disputas internas com regras claras e institucionalidade, o custo será pago pela população. A boa notícia é que, no setor em que o governo tirou o pé do acelerador, a economia respondeu. O mercado, mais uma vez, mostra que é mais eficiente que qualquer gabinete.
O desafio de Tinubu, que se apresenta como reformador, é aplicar a mesma lógica de livre mercado à política: menos controle, mais regras, competição e transparência. Enquanto isso não ocorre, a Nigéria permanece um país onde o petróleo escorre pelos canos do Estado, mas a gasolina barata só chega quando o capital privado pode trabalhar sem amarras.
**1. A queda dos preços de combustível na Nigéria é resultado do governo ou do mercado?** A queda é resultado direto da desregulamentação parcial e da concorrência, liderada pela refinaria de Dangote e distribuidoras privadas. O governo apenas removeu o subsídio e o tabelamento; quem baixou o preço foi o setor privado, em busca de market share.
**2. O racha no APC pode levar à perda de governabilidade?** Se o partido não resolver a disputa interna com critérios institucionais, a instabilidade pode minar a base parlamentar de Tinubu. Porém, a oposição fragmentada ainda não representa ameaça direta no curto prazo. O risco principal é a paralisia decisória em reformas econômicas.
Por Renan Filho · 2026-09-23