A Nigéria, maior economia da África, e a Alemanha, locomotiva industrial da Europa, deram mais um passo concreto em direção a uma parceria estratégica que envolve aço, tecnologia e acesso a recursos minerais. Em coletiva conjunta realizada em Abuja, o ministro das Finanças nigeriano, Wale Edun, e o vice-ministro da Economia alemão, Udo Philipp, confirmaram que as tratativas avançaram para a fase de definição de cronogramas e metas de investimento.
De acordo com nota conjunta divulgada pelo Ministério do Comércio da Nigéria, o plano prevê a construção de uma usina siderúrgica de médio porte no estado de Delta, com capacidade inicial de 1,5 milhão de toneladas de aço por ano. A tecnologia viria da ThyssenKrupp e da SMS group, duas gigantes alemãs do setor. Em troca, a Alemanha teria acesso prioritário a minério de ferro nigeriano — estima-se que o país possua mais de 3 bilhões de toneladas de reservas, a maior parte ainda não explorada.
O chanceler Olaf Scholz, em publicação em sua conta oficial no X (antigo Twitter), classificou o acordo como “um passo importante para uma parceria equilibrada entre África e Europa”. Scholz destacou que a iniciativa está alinhada com a estratégia alemã de reduzir a dependência de fornecedores asiáticos de aço, especialmente da China, e de fortalecer cadeias produtivas mais próximas e confiáveis.
**Por que isso importa**
O movimento alemão não é isolado. Desde a crise energética de 2022, agravada pela guerra na Ucrânia, Berlim tem buscado alternativas para garantir insumos industriais sem depender excessivamente de Pequim ou de Moscou. A Nigéria, por sua vez, tenta há décadas diversificar sua economia, ainda fortemente ancorada na exportação de petróleo — que representa cerca de 90% das receitas cambiais do país.
A transferência de tecnologia é o ponto mais sensível das negociações. Enquanto a Alemanha quer garantir que a usina opere com padrões ambientais europeus — incluindo metas de redução de emissões de CO₂ —, a Nigéria exige que o acordo inclua a capacitação de engenheiros locais e a criação de um centro de pesquisa aplicada em metalurgia. Segundo o ministro Edun, “não aceitaremos ser apenas um depósito de máquinas obsoletas. Queremos dominar o processo produtivo”.
**Análise FORTIS**
Do ponto de vista liberal-conservador, o acordo tem méritos, mas exige cautela. A lógica de livre mercado recomenda que parcerias internacionais sejam firmadas com base em vantagens comparativas reais, e não em subsídios estatais ou promessas políticas. A Alemanha, historicamente, usa seu poder econômico para impor regulações ambientais que funcionam como barreiras não tarifárias — o chamado “imperialismo verde”. A Nigéria precisa garantir que as exigências climáticas não se transformem em custos extras que inviabilizem a competitividade do aço produzido localmente.
Além disso, o histórico de grandes projetos de infraestrutura na África subsaariana é repleto de fracassos por corrupção, má gestão e falta de manutenção. O governo nigeriano, que gasta mal e tributa excessivamente sua população — o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) foi elevado para 10% em 2025 —, precisa demonstrar que o projeto será gerido com transparência e eficiência. Caso contrário, a usina pode se tornar mais um elefante branco.
**Contraponto**
Críticos do acordo, como o economista nigeriano Kingsley Moghalu, apontam que a transferência de tecnologia prometida pela Alemanha historicamente vem acompanhada de cláusulas de propriedade intelectual que limitam o uso do conhecimento adquirido. Em entrevista à Rádio Nigeria, Moghalu afirmou: “A Alemanha não vai entregar o segredo da liga de aço de alta resistência. Vai ensinar o básico, mas manterá o controle dos processos mais lucrativos.”
Há também preocupações ambientais legítimas. A mineração de ferro no centro-norte da Nigéria, em regiões como Kogi e Plateau, tem sido associada a desmatamento e contaminação de rios. Organizações como a Environmental Rights Action já pedem que o acordo inclua auditorias socioambientais independentes.
**1. O acordo já foi assinado?** Não. As negociações estão em fase de memorandos de entendimento. A previsão é que o contrato definitivo seja assinado até o primeiro trimestre de 2027, após análises técnicas e aprovação do parlamento nigeriano.
**2. Qual o papel do Brasil nesse cenário?** Indiretamente, o Brasil pode ser afetado como concorrente. A Nigéria, se conseguir produzir aço com custos competitivos, poderá disputar mercado com a siderurgia brasileira na África e até no Oriente Médio. Empresas como a Vale já monitoram o avanço das tratativas, segundo fontes do setor ouvidas pela FORTIS.
Por Renan Filho · 2026-09-25