A destruição de infraestrutura pública virou um negócio lucrativo na Nigéria, e o caso mais recente ocorre na emblemática Ponte do Níger, que liga os estados de Anambra e Delta. O ministro das Obras e Habitação, David Umahi, fez um apelo direto aos governadores Chukwuma Soludo (Anambra) e Sheriff Oborevwori (Delta) para que intensifiquem o monitoramento dos mercados de sucata, apontados como principais pontos de escoamento de materiais roubados de obras públicas. A declaração foi dada em publicação nas redes sociais, reforçando a urgência de ações coordenadas para estancar o sangramento de recursos públicos que se transformam em ferro-velho.
O vandalismo não é novidade no país, mas a escala e a ousadia das ações têm crescido, especialmente em grandes obras como a Segunda Ponte do Níger, inaugurada com pompa em 2022 e já alvo de furtos de cabos, grades de proteção e elementos estruturais. Umahi alertou que a integridade da ponte corre risco real e que a falta de vigilância eficiente transforma o contribuinte nigeriano em vítima de uma máfia organizada que age com a conivência, muitas vezes, de pequenos comerciantes de ferro-velho que compram material sem questionar a origem.
O ministro não poupou os governos estaduais. Para ele, os estados precisam assumir sua parcela de responsabilidade, já que a segurança pública é competência concorrente e o policiamento ostensivo nas regiões próximas a canteiros e estruturas críticas é dever dos governadores. A fala encontra eco na lógica liberal-conservadora: o Estado que não protege a propriedade pública falha com o contribuinte e incentiva a degradação do patrimônio, gerando prejuízo bilionário que, no fim, é pago por quem trabalha e paga impostos.
O episódio expõe uma realidade incômoda: o Brasil e outros países latino-americanos conhecem bem o fenômeno, com roubos de fios de cobre, tampas de bueiro e até trilhos de trem. Na Nigéria, a situação é agravada pela debilidade institucional e pela corrupção endêmica, mas a solução não passa apenas por mais polícia. É preciso criar mecanismos de mercado que desestimulem a compra de materiais sem procedência, como registros digitais de transações em ferros-velhos, rastreabilidade de metais e punições severas para receptadores.
Umahi defende que os governos estaduais criem cadastros obrigatórios para os comerciantes de sucata, com inspeções regulares e cruzamento de dados com as empresas de construção. A proposta é sensata e vai na direção de uma eficiência estatal mínima: em vez de burocratizar a economia, ela torna o ilegal mais caro e arriscado, ao mesmo tempo em que não criminaliza a atividade lícita de reciclagem.
Os governadores, por sua vez, alegam que a responsabilidade pela segurança das rodovias federais é da União, uma disputa típica de federações onde o dinheiro é curto e as obrigações são jogadas para o vizinho. Soludo, em nota à imprensa, disse que as patrulhas estaduais já atuam, mas que falta integração com as forças federais. Oborevwori, em entrevista à rádio local, prometeu intensificar a fiscalização nos ferros-velhos, mas ressaltou que o governo federal precisa acelerar o pagamento das obras em andamento para gerar empregos e reduzir a tentação do crime.
O contraponto é necessário: monitorar mercados de sucata é paliativo se não houver consequência jurídica efetiva para os quadrilheiros. Na Nigéria, as leis de receptação são frouxas e a polícia, mal paga, muitas vezes faz vista grossa. A saída liberal passa por reforma do sistema de justiça e pela valorização da propriedade privada e pública, mas isso é assunto de longo prazo. No curto prazo, a medida de Umahi é pragmática, mas exige capilaridade que os governos estaduais historicamente não demonstram.
O FORTIS reconhece que a pressão do ministro é correta, mas acredita que o problema só será resolvido com uma combinação de segurança, transparência e punição exemplar. O Estado não pode ser visto como fonte de renda para vândalos. A infraestrutura brasileira, por exemplo, sofre com o mesmo mal, e a resposta do poder público costuma ser tímida, o que reforça a necessidade de uma postura dura, baseada em dados e em uma lógica de custo-benefício que priorize o contribuinte e a soberania nacional.
No fim, a cobrança de Umahi aos governadores é um lembrete de que a responsabilidade não pode ser terceirizada. O cidadão comum, que paga pedágio e impostos, exige que o dinheiro público seja bem aplicado e preservado. Se o mercado de sucata virar um escoadouro oficial do patrimônio público, a Nigéria estará jogando no lixo o seu futuro — e o mesmo serve para qualquer país que ignore o problema.
Por Renan Filho · 2026-09-24