A Bolsa de Valores da Nigéria (NGX) atingiu um novo recorde histórico, com a capitalização total do mercado de ações superando a barreira dos 163 trilhões de nairas (aproximadamente R$ 163 trilhões) no pregão desta quarta-feira, 24 de setembro de 2026. O marco, verificado pelo índice NGX All-Share, que subiu 2,3% no dia, representa um crescimento nominal de mais de 40% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O principal motor do rali é a sequência de reformas pró-mercado implementadas pela administração do presidente Bola Tinubu, com forte protagonismo do ministro de Estado para o Petróleo, Timipre Sylva, e do governador do Banco Central da Nigéria, Olayemi Cardoso. A decisão de unificar as taxas de câmbio em junho de 2023 e a recente eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis — medida defendida há décadas por economistas liberais — finalmente atraíram capital estrangeiro de volta ao país.
"A Nigéria está colhendo os frutos de escolhas difíceis", declarou o ministro Sylva em entrevista à imprensa local após o anúncio do recorde. "Reduzimos o peso do Estado, permitimos que o mercado encontrasse o preço real da moeda e eliminamos distorções que beneficiavam apenas uma elite conectada politicamente. O resultado é este: capital voltando a fluir e empresas listadas sendo reavaliadas para cima."
O setor bancário, que responde por cerca de 35% do índice, foi o principal destaque. Ações dos bancos Zenith Bank, Access Holdings e Guaranty Trust Holding Company (GTCO) subiram entre 4% e 7% no dia, impulsionadas pela valorização da naira no mercado paralelo após a unificação cambial. A melhora na percepção de risco soberano da Nigéria — com o Credit Default Swap (CDS) de 5 anos caindo mais de 150 pontos-base desde janeiro — também ajudou a reduzir o custo de capital das empresas.
Analistas do setor privado, como o economista-chefe da Financial Derivatives Company, Bismarck Rewane, apontam que a marca de 163 trilhões de nairas reflete um reajuste racional de preços de ativos após anos de repressão financeira, e não apenas uma bolha especulativa. "O mercado está precificando o novo normal de taxas de juros reais positivas e a perspectiva de crescimento do PIB real acima de 3% pela primeira vez em uma década", comentou Rewane em nota aos clientes. "Se o governo mantiver a disciplina fiscal, o piso de 200 trilhões de nairas é factível em 12 meses."
No entanto, a euforia no mercado de capitais convive com uma realidade social duríssima. O fim dos subsídios aos combustíveis elevou o preço da gasolina em mais de 200% desde maio de 2023, comprimindo o poder de compra dos trabalhadores e pequenos empresários. A inflação ao consumidor ainda roda perto de 28%, embora tenha desacelerado ligeiramente nos dois últimos meses. Críticos da administração Tinubu, como a ex-vice-presidente do Partido Trabalhista, Obi Johnson, argumentam que o recorde na bolsa é "música para os ouvidos dos ricos" enquanto a maioria da população empobrece.
A crítica tem fundamento factual: a taxa de desemprego jovem (15-34 anos) permanece em 42,5%, segundo o National Bureau of Statistics (NBS), e a pobreza extrema afeta mais de 90 milhões de nigerianos, um recorde absoluto em termos nominais. O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), em seu relatório mais recente, alertou que "a sustentabilidade social das reformas dependerá da capacidade do governo de expandir rapidamente os programas de transferência de renda e reduzir a burocracia para estimular o empreendedorismo de base".
Apesar do contraponto social, o recorde de capitalização de N163tn representa uma vitória inegável para a tese liberal-conservadora. A Nigéria, que por décadas foi considerada um dos países mais fechados e estatizados da África Ocidental — com controle de capital, câmbio fixo artificial e empresas estatais ineficientes —, está mostrando que a abertura econômica, mesmo tardia e dolorosa, gera resultados mensuráveis em valorização de ativos e influxo de capital estrangeiro.
O governo Tinubu também avançou na privatização de ativos. Em agosto passado, a Agência de Concessão e Privatização (BPE) anunciou a venda de participações minoritárias na Nigerian Telecommunications Limited (NITEL) e na Nigerian Power Generation Company (GenCo) para fundos de investimento internacionais, por um total de US$ 3,2 bilhões. Este movimento reduziu o déficit fiscal em 1,5% do PIB e sinalizou ao mercado que a desestatização é uma política de Estado, não apenas um discurso.
Na análise da FORTIS NEWS, o caso nigeriano oferece lições para o Brasil e outros países latino-americanos que ainda relutam em encarar reformas estruturais. Enquanto economias como a argentina de Milei e a nigeriana de Tinubu-Sylva avançam com liberalização comercial e cambial, o Brasil sob Lula patina com alta tributação, baixa poupança e controle de preços. Os dados não mentem: enquanto a Nigéria atingiu N163tn de capitalização (equivalente a cerca de 170 bilhões de dólares), o Ibovespa brasileiro, em reais, cresceu apenas 6% no mesmo período — e em dólares, perdeu 12% no acumulado de 12 meses, corroído pelo câmbio e pela desconfiança fiscal.
O contraponto necessário é que a Nigéria parte de uma base muito baixa: seu mercado de ações tem apenas 166 empresas listadas e sua capitalização de mercado ainda é inferior à de empresas isoladas, como a Petrobras ou a Vale. O país também está longe de resolver problemas estruturais como a corrupção sistêmica, a insegurança jurídica e a infraestrutura deficiente (falta de eletricidade confiável, portos congestionados). O recorde de hoje é um marco, não a linha de chegada.
O que o fato concreto demonstra é que, quando um governo tem a coragem de enfrentar interesses estabelecidos — mesmo que temporariamente inviabilize boa parte da população —, o capital reage com prêmios de risco menores e fluxos de investimento maiores. A questão moral que fica é se a aposta de que o crescimento econômico "escorrerá" para baixo a tempo das próximas eleições de 2027 se sustentará. Por enquanto, o mercado diz que sim.
Por Renan Filho · 2026-09-24