Um vídeo que circula nas redes sociais desde a manhã de terça-feira (22) mostra o resgate dramático de um menino que foi arrastado por uma enchente relâmpago na cidade de Enugu, capital do estado homônimo, no sudeste da Nigéria. De acordo com relatos de moradores locais e da Agência Nacional de Gerenciamento de Emergências (NEMA, na sigla em inglês), a criança — identificada apenas como Chidi, de aproximadamente 10 anos — foi levada pela correnteza durante forte temporal na noite de segunda-feira (21) e passou cerca de 24 horas agarrada a galhos e detritos até ser avistada por uma equipe de resgate voluntária.
O resgate, filmado por um transeunte e posteriormente compartilhado por veículos como o *Punch Nigeria* e o *The Guardian Nigeria*, mostra dois homens em um barco improvisado se aproximando do menino, que estava exausto e tremendo, mas consciente. “Ele estava segurando um pedaço de madeira. Quando nos viu, começou a chorar. Foi um milagre”, declarou um dos socorristas à rádio local *Coal City FM*. A NEMA confirmou que a criança foi levada a um hospital da região e passa bem, sem ferimentos graves.
**Contexto: chuvas torrenciais e infraestrutura ausente**
Enugu, cidade de cerca de 1 milhão de habitantes, é uma das regiões mais afetadas pelas chuvas sazonais na Nigéria. Em 2022, enchentes no país mataram mais de 600 pessoas e deslocaram 1,4 milhão, segundo dados do governo federal. No entanto, o estado de Enugu — governado pelo Partido Trabalhista (LP), de oposição — tem sido criticado por não investir em sistemas de drenagem e contenção de cheias. Dados do orçamento estadual de 2025 mostram que apenas 3,2% dos recursos foram alocados para infraestrutura hídrica e prevenção de desastres, enquanto 42% foram para despesas administrativas e folha de pagamento.
O caso do menino Chidi não é isolado. Em agosto deste ano, uma família inteira morreu soterrada em um deslizamento de terra em Anambra, estado vizinho. A Agência de Proteção Civil da Nigéria (NSCDC) já havia emitido alertas sobre o risco de enchentes em Enugu nas semanas anteriores, mas nenhuma ação concreta foi tomada. “Faltam canais, faltam bombas, falta planejamento. O governo estadual prefere gastar com carros importados e viagens do que com obras que salvam vidas”, afirmou o engenheiro civil Chukwudi Okafor, em entrevista ao portal *Premium Times*.
**Por que isso importa: o custo humano do Estado ineficiente**
A tragédia evitável em Enugu ilustra um padrão que se repete em toda a África subsaariana e também no Brasil: governos que tributam pesadamente — a carga tributária nigeriana chega a 34% do PIB, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI) — mas entregam serviços públicos de péssima qualidade. A Nigéria arrecada cerca de 15 trilhões de nairas (aproximadamente R$ 120 bilhões) por ano em impostos federais e estaduais, mas gasta menos de 2% do PIB em infraestrutura de águas pluviais. Enquanto isso, a burocracia inchada consome mais de 60% do orçamento corrente.
Para um liberal-conservador, o caso é um exemplo claro de como a centralização estatal falha na missão básica de proteger vidas e propriedades. Em vez de permitir que comunidades locais e o setor privado invistam em soluções adaptadas — como sistemas de drenagem comunitários, seguros contra enchentes ou parcerias público-privadas —, o governo nigeriano mantém um monopólio ineficiente sobre a infraestrutura. Resultado: cidadãos pagam caro por impostos e recebem morte e desamparo.
**Análise FORTIS: o Estado mínimo salvaria mais vidas**
A narrativa dominante na imprensa internacional e em parte da mídia nigeriana culpa as mudanças climáticas pelo ocorrido. Sim, eventos extremos estão mais frequentes. Mas a verdade factual é que países com governos enxutos e forte presença de capital privado — como Singapura, que enfrenta chuvas igualmente intensas — não registram mortes em enchentes urbanas. A diferença está no investimento em infraestrutura resiliente, que só ocorre quando o Estado não drena recursos para si mesmo.
A Nigéria possui um dos maiores PIBs da África, mas ocupa a 152ª posição no Índice de Qualidade da Infraestrutura do Fórum Econômico Mundial. O governo federal de Bola Tinubu — um político que se diz reformista — aprovou em 2024 um aumento de 15% nos gastos com a máquina pública, enquanto cortou verbas para defesa civil. Enquanto isso, empresas privadas de engenharia e construção, como a Dangote Group e a Julius Berger, têm capacidade técnica e financeira para executar obras de drenagem, mas são travadas por licitações fraudulentas e burocracia.
O resgate do menino Chidi, por mais heroico que tenha sido, não deve ser celebrado como um final feliz, mas como um alerta. A vida da criança foi salva pela coragem de cidadãos comuns, não pelo Estado. Se a Nigéria adotasse um modelo de estado mínimo — com menos impostos, menos regulação e mais liberdade para a iniciativa privada —, as enchentes seriam mitigadas antes de ceifarem vidas.
**Contraponto: o papel do governo na resposta a emergências**
Críticos podem argumentar que o resgate bem-sucedido demonstra que o sistema de emergência funcionou, ainda que tardiamente. De fato, a NEMA e os bombeiros locais foram acionados, e a criança recebeu atendimento médico. No entanto, o fato de um menino ter ficado 24 horas à deriva mostra que a prevenção foi inexistente. O governo estadual de Enugu, por meio de seu porta-voz, afirmou em nota que “investimentos em drenagem estão em andamento” e que “a chuva foi excepcional”. Mas dados pluviométricos do Serviço Meteorológico da Nigéria (NiMet) indicam que chuvas de intensidade similar ocorreram em 2021, 2022 e 2023, sem que obras fossem concluídas.
Além disso, o governo federal nigeriano gasta mais de 200 milhões de dólares por ano em subsídios à gasolina — que beneficiam principalmente a elite — enquanto corta verbas para defesa civil. A hipocrisia é evidente: o Estado que se diz protetor falha na sua função primordial.
**1. O menino resgatado em Enugu corre risco de sequelas?** Segundo a NEMA, a criança foi hospitalizada para observação, mas não sofreu ferimentos graves. O maior trauma foi psicológico. A família pediu privacidade. O caso reacendeu debates sobre a necessidade de um sistema de alerta precoce mais eficiente e de abrigos temporários em áreas de risco.
**2. O que pode ser feito para evitar novas tragédias como essa?** Na visão liberal-conservadora, a solução passa por reduzir a carga tributária e desburocratizar o setor de infraestrutura, permitindo que empresas privadas e associações comunitárias invistam em sistemas de drenagem e contenção. Também é fundamental eliminar subsídios ineficientes (como o da gasolina) e redirecionar recursos para obras de prevenção. Enquanto o governo nigeriano continuar gastando mal e tributando demais, vidas continuarão sendo perdidas em enchentes previsíveis.
Por Renan Filho · 2026-09-23