O Reino de Marrocos realiza eleições legislativas em 23 de setembro de 2026, em um momento decisivo para o país. O governo do primeiro-ministro Aziz Akhannouch, do partido RNI (Agrupamento Nacional dos Independentes), busca renovar o mandato com base em uma agenda liberal-conservadora que prioriza a abertura comercial, a redução do papel do Estado na economia e a consolidação da soberania sobre o Saara Ocidental.
Segundo dados oficiais do Ministério do Interior marroquino, mais de 18 milhões de eleitores estão habilitados a votar. O pleito ocorre em um contexto de inflação controlada (3,2% ao ano, segundo o Banco Central marroquino) e crescimento do PIB projetado em 3,8% para 2026, impulsionado por setores como agricultura irrigada, fosfatos e manufatura automotiva.
Para a Nigéria, as eleições marroquinas não são um evento distante. Marrocos é o segundo maior investidor africano na Nigéria, atrás apenas da África do Sul, com investimentos diretos acumulados de US$ 1,2 bilhão, segundo o Nigerian Investment Promotion Commission (NIPC). A parceria inclui desde fertilizantes — Marrocos é o maior exportador mundial de fosfato — até projetos de infraestrutura portuária e energia.
O contexto é de expansão da influência marroquina na África Ocidental. Desde 2017, Marrocos integra a União Africana após 33 anos de ausência, e tem atuado como contraponto à Argélia no Sahel. O governo de Rabat também lidera o processo de construção do gasoduto Nigéria-Marrocos, um megaprojeto de 5.600 km que pode transportar gás natural nigeriano até a Europa, passando por 13 países africanos. A obra, orçada em US$ 25 bilhões, está em fase final de estudos de viabilidade técnica.
Os partidos de oposição — como o islamista PJD (Partido da Justiça e Desenvolvimento) e o socialista USFP (União Socialista das Forças Populares) — criticam as reformas de Akhannouch por supostamente aprofundarem a desigualdade. No entanto, dados do Alto Comissariado para o Planejamento (HCP) mostram que a pobreza extrema caiu de 8,9% em 2019 para 6,2% em 2025, e o desemprego entre jovens recuou de 26% para 21% no mesmo período, ainda alto mas em trajetória de melhora.
A Fortis News analisa: Marrocos é um caso raro de país árabe-africano que combina monarquia constitucional com liberalização econômica consistente. O rei Mohammed VI, que detém poder executivo e religioso, tem sido o fiador da estabilidade política e da abertura comercial. O país reduziu tarifas de importação em 40% desde 2020, assinou acordos de livre comércio com a União Europeia, Estados Unidos e Turquia, e modernizou seu sistema portuário em Tânger, hoje o maior do Mediterrâneo em capacidade de contêineres.
Contraponto crítico: a dependência do setor de fosfatos (20% do PIB) e a sazonalidade agrícola ainda tornam a economia vulnerável a choques externos. Além disso, o custo do subsídio ao gás butano e à farinha de trigo consome 4% do orçamento anual, um gasto público ineficiente que o governo promete reformar gradualmente. Para a Nigéria, que subsidia gasolina em mais de US$ 10 bilhões ao ano, o exemplo marroquino de substituição de subsídios por transferência direta de renda (o programa “RAMED” ampliado) pode ser um modelo a observar.
Em publicação nas redes sociais, o ministro das Relações Exteriores da Nigéria, Yusuf Tuggar, afirmou em 15 de setembro de 2026 que "as eleições marroquinas são uma vitrine de democracia estável em um Sahel em turbulência. A Nigéria apoia qualquer governo que respeite a soberania nacional e promova o comércio livre". Já o líder do partido nigeriano Labour Party, Peter Obi, declarou à imprensa local que "Marrocos mostra que crescimento econômico não precisa ser sinônimo de autoritarismo. Cabe à Nigéria aprender com quem acerta".
O resultado das urnas em Marrocos terá impacto direto sobre o cronograma do gasoduto. O principal candidato opositor, o líder do PJD, Abdelilah Benkirane, defende maior regulação estatal sobre contratos energéticos e revisão das parcerias com Israel, firmadas em 2020. Uma eventual vitória oposicionista poderia atrasar ou renegociar o projeto, afetando diretamente a Nigéria, que aposta no gasoduto como alternativa para diversificar sua matriz energética e reduzir a dependência das exportações de petróleo bruto.
Para o leitor da Fortis News, a lição é clara: em um mundo de incertezas geopolíticas, nações que investem em reformas estruturais, estado mínimo e parcerias comerciais pragmáticas colhem frutos. Marrocos não é uma monarquia liberal no sentido ocidental, mas seu modelo de desenvolvimento — baseado em estabilidade, abertura e soberania — oferece um contraponto ao intervencionismo estatal que perpetua o subdesenvolvimento em grande parte da África.
Por Renan Filho · 2026-09-23