O governo do estado de Lagos, na Nigéria, deflagrou uma operação de fiscalização ambiental que resultou no fechamento de igrejas, hotéis, bares e lojas em diversas áreas da capital comercial do país. A ação foi conduzida pela Agência de Proteção Ambiental do Estado de Lagos (LASEPA) e, segundo comunicado oficial, visa coibir a poluição sonora e o descarte irregular de resíduos.
O diretor-geral da LASEPA, Dr. Babatunde Ajayi, afirmou em publicação nas redes sociais que “a agência não vai tolerar atividades que coloquem em risco a saúde pública e o bem-estar dos cidadãos”. A justificativa técnica, no entanto, não convenceu setores do empresariado e lideranças religiosas, que veem na medida um excesso de intervenção estatal e falta de diálogo.
A Associação dos Operadores Hoteleiros da Nigéria (HONAN) reagiu com duras críticas. Segundo o presidente da entidade, Alhaji Shehu Aliyu, muitos dos estabelecimentos lacrados operam dentro da legalidade há anos e nunca foram notificados sobre irregularidades. “Não somos contra a regulação ambiental, mas contra a arbitrariedade. Fechar um negócio da noite para o dia, sem aviso prévio, é destruir o emprego de dezenas de famílias”, declarou Aliyu à imprensa local.
A situação também expõe um velho problema nigeriano: a sobreposição de competências entre governos federal, estadual e municipal. Em Lagos, a regulação do uso do solo e do licenciamento comercial compete tanto ao governo estadual quanto às autoridades locais. Empresários relatam que é comum pagar taxas múltiplas e, ainda assim, ser surpreendidos por uma autuação de outro ente.
Igrejas, especialmente as neopentecostais, foram alvo preferencial da operação. Pastores locais alegam que a LASEPA age de forma seletiva e com critérios subjetivos para medir o volume de som. “Se o problema é o barulho, por que as mesquitas não foram fechadas?”, questionou o pastor Samuel Ogunleye, da Igreja Redenção de Lagos, em entrevista à rádio local Wazobia FM. O questionamento levanta a suspeita de perseguição religiosa disfarçada de pauta ambiental.
Do ponto de vista econômico, o momento não poderia ser pior. A Nigéria enfrenta uma inflação de alimentos acima de 30% ao ano, e o naira sofre desvalorização constante. Fechar dezenas de negócios — muitos deles pequenos e médios — significa aumentar o desemprego e reduzir a arrecadação em um momento em que o governo mais precisa de receita.
Análise FORTIS: Não se trata de ser contra o meio ambiente. Trata-se de saber se o Estado tem competência para agir com proporcionalidade e devido processo legal. A história recente mostra que, sempre que um governo estadual na Nigéria decide “dar um exemplo”, os primeiros a sofrer são os pequenos empreendedores e as comunidades religiosas — exatamente aqueles que mais geram coesão social e empregos informais. O poder de lacrar um negócio é o poder de destruir vidas. Deveria ser exercido com parcimônia, transparência e amplo direito de defesa, algo que, pelos relatos disponíveis, não ocorreu.
Contraponto: Vale registrar que Lagos é uma cidade com mais de 20 milhões de habitantes e sofre com problemas ambientais reais — poluição sonora, lixo nas ruas e contaminação de canais. A LASEPA tem um mandato legal para agir. O que se questiona não é a existência da regulação, mas a forma como ela é aplicada: sem aviso prévio, sem prazo para regularização, e com critérios que parecem variar conforme a conveniência política. Em um país onde a corrupção é endêmica, ações espetaculosas de fiscalização frequentemente escondem acertos com grupos específicos ou perseguições a adversários.
Por Renan Filho · 2026-09-23