O bispo católico de Sokoto, reverendo Matthew Kukah, tornou pública sua preocupação com o declínio da influência da Igreja Católica na Nigéria. Em declaração à imprensa nigeriana nesta semana, o prelado afirmou que a instituição perde espaço não apenas por fatores externos, como a violência de grupos jihadistas e a expansão do islamismo político, mas também por falhas internas de liderança e falta de engajamento com as transformações sociais.
Kukah, uma das vozes mais respeitadas entre os cristãos no norte da Nigéria, ressaltou que a Igreja já foi um pilar na educação, saúde e mediação de conflitos, mas hoje enfrenta uma crise de relevância. Segundo ele, o silêncio de parte da hierarquia eclesiástica diante de abusos e escândalos minou a autoridade moral necessária para influenciar políticas públicas. O bispo também culpou o governo federal por não garantir o direito à liberdade religiosa, permitindo que extremistas ataquem igrejas e desloquem comunidades inteiras.
O contexto nigeriano é marcado por um crescimento acelerado de igrejas evangélicas neopentecostais, que atraem fiéis com discursos de prosperidade e milagres, ao mesmo tempo em que o catolicismo enfrenta estagnação demográfica e perda de jovens. Dados do Pew Research Center indicam que, embora 18% da população seja católica, a participação em missas e o envolvimento em obras sociais diminuíram nos últimos dez anos, especialmente entre os mais escolarizados.
Por que isso importa? A diminuição da influência católica na Nigéria não é apenas uma questão religiosa, mas tem implicações diretas na estabilidade política e no desenvolvimento humano. Escolas e hospitais católicos frequentemente atuam onde o Estado é ausente; seu enfraquecimento pode abrir brechas para serviços de qualidade inferior ou para a expansão de grupos radicais que oferecem assistência com viés ideológico. Além disso, a Igreja Católica tem sido uma das instituições mais firmes na defesa da democracia e contra a corrupção, duas áreas em que a Nigéria patina.
Análise FORTIS: É inegável que a crise de credibilidade do catolicismo nigeriano passa por erros que a própria instituição cometeu. Mas o diagnóstico de Kukah precisa ser ampliado. O poder do Estado nigeriano, hipercentralizado e perdulário, sufoca a sociedade civil e dificulta que organizações religiosas exerçam seu papel sem interferência governamental. Ao mesmo tempo, a Igreja Católica manteve uma estrutura hierárquica lenta e resistente a inovações, o que a torna menos competitiva em um mercado religioso cada vez mais dinâmico. Soluções de livre iniciativa, como maior autonomia financeira das dioceses e parcerias com o setor privado para projetos sociais, poderiam reverter parte do quadro sem depender de subsídios estatais.
Contraponto: Estudos acadêmicos, como o do Instituto Nigeriano de Pesquisa Social, apontam que o declínio da influência católica é exagerado por análises centradas no norte do país, onde a perseguição é mais intensa. No sul, o catolicismo mantém forte presença política e educacional. Outros críticos afirmam que Kukah, ele mesmo um bispo progressista dentro da Igreja, pode estar projetando insatisfações pessoais com a Cúria Romana, enquanto líderes católicos mais conservadores argumentam que a fidelidade doutrinária é mais importante que a influência numérica.
Por Renan Filho · 2026-09-25