A senadora Ireti Kingibe (Partido Trabalhista) devolveu, nesta terça-feira (24), as críticas públicas feitas pelo ministro da Capital Federal da Nigéria, Nyesom Wike. Durante entrevista à rádio local Channels TV, Kingibe afirmou que “nenhum ministro está acima do escrutínio do parlamento”, em referência direta à declaração de Wike de que a senadora “não tem poder para investigá-lo”.
O embate começou na semana passada, quando Kingibe questionou, em plenário, o uso de verbas do orçamento da FCT (Federal Capital Territory) para projetos que, segundo ela, “não atendem às prioridades da população”. Wike, ex-governador de Rivers e figura central no Partido Democrático Popular (PDP), reagiu com ironia nas redes sociais, afirmando que a senadora “deveria focar em seu próprio estado” e que “não permitiria que ninguém desrespeitasse o gabinete”.
A troca de farpas não é apenas pessoal. Ela revela um padrão preocupante de resistência do Executivo nigeriano aos mecanismos de checks and balances, especialmente em um país onde a corrupção e o desperdício de recursos públicos consomem cerca de 20% do PIB, segundo dados do Banco Mundial. O governo do presidente Bola Tinubu, eleito com promessas de liberalização econômica e combate à impunidade, tem visto seus próprios ministros atuarem como se estivessem acima da lei.
**Por que isso importa**
Do ponto de vista liberal-conservador, o escrutínio parlamentar é a principal barreira contra o abuso de poder e o mau uso do dinheiro do contribuinte. Na Nigéria, o Estado gasta mal, tributa excessivamente e entrega pouco — exatamente o oposto do que prega o livre mercado. A atitude de Wike, ao tentar silenciar uma senadora da oposição, enfraquece a já frágil cultura de transparência fiscal.
Segundo o portal Premium Times, a FCT consumiu, em 2024, mais de 400 bilhões de nairas (cerca de 1,5 bilhão de reais) em obras de infraestrutura, mas 60% delas estão paralisadas ou com cronogramas atrasados. Dados oficiais do Escritório de Auditoria da Nigéria indicam que contratos superfaturados e pagamentos a empresas fantasmas são recorrentes na gestão de territórios controlados diretamente pelo governo federal.
**Análise FORTIS**
O caso Kingibe x Wike é paradigmático para o debate sobre limites do poder. Wike, um veterano da política nigeriana, representa o establishment que se sente ameaçado pela fiscalização. Kingibe, por sua vez, mesmo sendo do Partido Trabalhista (de esquerda em algumas pautas), acerta ao defender o princípio republicano de que ninguém está acima da lei. O erro da esquerda, aliás, costuma ser aplaudir o escrutínio contra adversários e ignorá-lo quando os seus estão no poder. Neste caso, o fato é que Kingibe está certa: o Legislativo tem o dever constitucional de fiscalizar.
No entanto, é preciso também apontar que a própria senadora Kingibe tem um histórico de defender políticas de aumento de gastos sociais e intervenção estatal na economia — algo que, na visão liberal, tende a agravar o problema do Estado inchado. Ainda assim, a defesa da transparência não tem ideologia: qualquer governo que se preze deve aceitar o controle externo.
**Contraponto**
Os apoiadores de Wike argumentam que a senadora estaria fazendo “politicagem barata” para desgastar um ministro que tenta modernizar a capital. É verdade que Abuja, a capital nigeriana, enfrenta problemas de mobilidade e saneamento herdados de gestões anteriores, e que Wike implementou algumas reformas de eficiência administrativa. Contudo, isso não justifica ataques à independência do Legislativo.
Além disso, o governo Tinubu, embora tenha avançado na eliminação de subsídios aos combustíveis (medida liberal correta), mantém uma política fiscal expansionista que gera inflação e desvalorização cambial. Nesse cenário, um ministro que se recusa a prestar contas é combustível para a desconfiança pública.
**1. O que exatamente Kingibe disse sobre Wike?** Em entrevista à Channels TV, a senadora afirmou: “Nenhum ministro está acima do escrutínio. A função de fiscalização é minha, como representante do povo. Se ele acha que pode ignorar o parlamento, está enganado.” A declaração foi em resposta à fala de Wike de que a senadora “não tem autoridade” para questioná-lo.
**2. Há histórico de confrontos entre o Legislativo e Wike?** Sim. Desde que assumiu a FCT, Wike tem sido criticado por deputados e senadores por não prestar contas sobre contratos de obras e pela demora na execução de projetos. Em julho, a Câmara dos Representantes chegou a aprovar uma convocação para que Wike explicasse o atraso na conclusão do anel viário de Abuja, mas ele não compareceu alegando “compromissos oficiais”.
Por Renan Filho · 2026-09-24