Centenas de jovens das comunidades de Okpuje, Ugbogba, Iyekogba, Okhuesan e Obeidu, no estado de Edo, bloquearam nesta quarta-feira (24) a estrada que liga Auchi a Okpella, exigindo o restabelecimento do fornecimento de energia elétrica, interrompido desde janeiro de 2026. Os manifestantes carregavam faixas com frases como '8 meses sem luz, 8 meses sem esperança' e 'Cadê o dinheiro da conta de luz?', segundo relatos da imprensa local.
O protesto durou cerca de cinco horas e só foi dispersado após a intervenção da polícia, que não registrou feridos graves. Em publicação nas redes sociais, o líder comunitário Osaro Omoregie afirmou que 'as concessionárias estatais coletam as taxas, mas não prestam o serviço. Nós pagamos impostos e tarifas, e recebemos escuridão em troca'.
O apagão prolongado afeta diretamente cerca de 12 mil pessoas, incluindo pequenos comerciantes, agricultores e estudantes. Sem geladeira, sem bomba d'água e sem iluminação para estudo noturno, os moradores recorrem a geradores a diesel, cujo custo mensal médio, segundo dados da Agência Nacional de Estatística da Nigéria, equivale a 18% da renda familiar típica da região.
A concessionária responsável pela área, a Benin Electricity Distribution Company (BEDC), divulgou nota oficial atribuindo a falha a 'danos estruturais na subestação de Auchi' e afirmou que 'as obras de reparo estão em andamento, mas dependem da liberação de recursos pelo governo federal'. Até o fechamento desta edição, não havia previsão concreta para o retorno da energia.
Por que isso importa: o caso de Edo não é isolado. A Nigéria, maior economia da África, sofre com um sistema elétrico crônico e ineficiente. Dados oficiais da Comissão Reguladora de Eletricidade da Nigéria (NERC) indicam que a capacidade instalada de geração é de 13 mil megawatts, mas a entrega efetiva à população raramente ultrapassa 4 mil MW – uma perda de 69% entre a usina e o consumidor. O modelo atual, em que o governo controla a geração e a transmissão, enquanto a distribuição é terceirizada para empresas privadas (mas fortemente reguladas), produz um gargalo duplo: ineficiência estatal e desestímulo ao investimento privado.
Análise FORTIS: o que se vê em Edo é a consequência previsível de um sistema que trata energia elétrica como um direito subsidiado, não como um serviço que precisa ser economicamente viável. Enquanto o governo nigeriano gasta bilhões de nairas em subsídios cruzados que nunca chegam ao consumidor final, as concessionárias acumulam dívidas com as geradoras – estimadas em mais de 1,3 trilhão de nairas (cerca de R$ 48 bilhões) em 2025. O resultado é o que se vê: empresas sem capital para manutenção, comunidades no escuro e cidadãos pagando a conta duas vezes – na tarifa e no gerador.
Os críticos do livre mercado argumentam que a privatização total deixaria comunidades rurais desassistidas. O dado, no entanto, aponta na direção oposta: onde há concorrência e tarifas realistas, como no setor de telecomunicações nigeriano, a cobertura saltou de 33% em 2001 para mais de 90% em 2025. A diferença? Privatização com regras claras e preços livres, sem subsídios distorcivos.
Contraponto: as autoridades locais alegam que a demora no reparo se deve à 'falta de peças de reposição importadas' e à 'burocracia no processo licitatório'. De fato, a dependência de componentes estrangeiros e a corrupção endêmica nos processos de compra pública são problemas reais. Mas, como aponta o economista nigeriano Adebayo Ogunlana em artigo no jornal Business Day, 'a solução não é mais Estado, é Estado melhor – e melhor significa menos intervenção, mais responsabilidade fiscal e abertura ao capital privado'.
Enquanto os debates teóricos ocupam os gabinetes em Abuja, os jovens de Edo acendem fogueiras para se aquecer à noite – não por tradição, por necessidade.
Por Renan Filho · 2026-09-25