O fundador do Lagos Food Bank, Michael Adebiyi, defendeu em publicação nas redes sociais que as polícias estaduais da Nigéria sejam mobilizadas para combater a inflação de alimentos, que ultrapassa 40% ao ano segundo dados do National Bureau of Statistics. A proposta sugere que os agentes estaduais atuem na fiscalização de estoques, no combate ao contrabando e na repressão à especulação nos mercados, especialmente no estado de Lagos, epicentro da crise de abastecimento.
A ideia surge em meio a um cenário de inflação alimentar persistente na Nigéria, impulsionada pela desvalorização da naira, pelos altos custos de transporte e pela insegurança nas zonas rurais, que afeta a produção agrícola. Em junho de 2026, o índice de preços ao consumidor para alimentos atingiu 42,3%, o maior nível desde 2005, segundo dados oficiais. O governo federal já havia tentado medidas como a distribuição de grãos e a suspensão de tarifas de importação, sem sucesso duradouro.
Por que isso importa — A proposta de envolver as polícias estaduais no combate à inflação reacende o debate sobre o federalismo nigeriano e a eficiência do Estado mínimo. Se por um lado a descentralização pode trazer respostas mais rápidas e ajustadas às realidades locais, por outro corre-se o risco de transformar a segurança pública em instrumento de controle de preços, o que historicamente gera distorções de mercado. O Lagos Food Bank, que atende milhares de famílias em situação de vulnerabilidade, tem legitimidade para levantar o problema, mas a solução proposta merece escrutínio.
Análise FORTIS — Do ponto de vista liberal-conservador, a inflação de alimentos na Nigéria é um sintoma de más políticas macroeconômicas e de intervenções estatais que distorcem o livre mercado. O Banco Central da Nigéria imprimiu moeda para financiar déficits fiscais, e o governo federal impõe restrições à importação de alimentos para supostamente proteger a agricultura local, mas o resultado é o oposto: escassez e preços elevados. Envolver a polícia estadual para combater a "especulação" — termo frequentemente usado para justificar controle de preços — pode agravar o problema. Especulação não é causa, mas consequência de incertezas regulatórias e de oferta insuficiente. Prender comerciantes não faz o arroz brotar nem a estrada asfaltar.
A experiência internacional mostra que medidas repressivas contra a inflação alimentar falham. No Brasil, a tentativa de controle de preços nos anos 80 resultou em desabastecimento e filas. Na Venezuela, a política de preços máximos levou à fome generalizada. A Nigéria precisa, antes de tudo, de reformas estruturais: liberalização do câmbio, redução de barreiras tarifárias, investimento em infraestrutura logística e segurança no campo. Polícia estadual pode ser útil para coibir roubos de cargas e proteger mercados, mas não para fixar preços ou punir "especuladores". A verdade factual é que a inflação é um fenômeno monetário e de oferta, e não de má-fé dos comerciantes.
Contraponto — Defensores da proposta argumentam que os estados nigerianos têm mais capilaridade e conhecimento das dinâmicas locais do que a polícia federal. Apoiadores de Adebiyi destacam que, em Lagos, a agência de segurança estadual (Lagos State Neighbourhood Safety Corps) já realiza operações contra o contrabando de combustível e alimentos para países vizinhos. Dados do governo de Lagos indicam que cerca de 30% dos alimentos produzidos no norte são desviados para o Chade e Níger, o que pressiona os preços internos. Nesse sentido, o uso da polícia estadual para fiscalizar fronteiras pode ser visto como legítimo. No entanto, mesmo que se reduza o contrabando, o efeito sobre a inflação seria limitado sem atacar a raiz monetária e cambial.
Por Renan Filho · 2026-09-24