O governo federal da Nigéria anunciou, em 24 de setembro de 2026, a meta de captar US$ 1,2 bilhão em financiamento privado para seu ambicioso projeto de expansão da rede de fibra óptica nacional. A informação foi divulgada pelo Ministério das Comunicações, Inovação e Economia Digital, em nota oficial à imprensa, destacando que o montante será integralmente levantado junto a investidores institucionais, fundos de infraestrutura e operadoras de telecomunicações – sem um kobo saído dos cofres públicos.
O projeto, batizado de “Nigeria Fibre Backbone 2.0”, prevê a implantação de mais de 200 mil quilômetros de cabos de fibra óptica, conectando todas as 774 áreas de governo local do país. O objetivo é quadruplicar a capacidade de banda larga terrestre da Nigéria até 2028, reduzindo os custos de conectividade em até 60% e acelerando a digitalização da economia. Em publicação nas redes sociais, o ministro Bosun Tijani afirmou que a iniciativa “não é sobre governo gastando, mas sobre governo criando as condições para que o setor privado invista e lucre”.
A decisão de buscar recursos privados não é trivial. Em um continente onde governos frequentemente se endividam ou recorrem a empréstimos multilaterais para tocar grandes obras de infraestrutura, a Nigéria sinaliza uma mudança de paradigma. O país, que enfrenta uma dívida pública de aproximadamente US$ 108 bilhões (cerca de 38% do PIB), aprendeu da pior forma que Estado superdimensionado gera ineficiência, corrupção e projetos inacabados. Exemplo disso são os mais de 17 bilhões de dólares gastos nos últimos 20 anos em subvenções ao setor elétrico, com resultados pífios: ainda hoje, 70 milhões de nigerianos vivem sem acesso confiável à energia.
POR QUE ISSO IMPORTA
A opção da Nigéria contrasta brutalmente com o modelo brasileiro. Aqui, o governo federal insiste em ser o protagonista de tudo, desde a Telebrás – que em 2024 levou R$ 1,2 bilhão para conectar menos de 100 mil domicílios rurais, enquanto a iniciativa privada, sem subsídio, já havia levado internet a mais de 2 milhões de lares no mesmo período – até obras faraônicas como a Transposição do São Francisco, que já consumiu R$ 14 bilhões e nunca foi concluída. O estado brasileiro gasta mal, tributa demais e entrega pouco; é a verdade factual que o cidadão sente no bolso todos os dias.
Quando o governo nigeriano diz que não vai colocar dinheiro público no projeto, ele está, na prática, reconhecendo um princípio básico de livre mercado: o empreendedor aloca recursos com mais eficiência que o burocrata. Investidores privados exigem métricas claras, retorno sobre capital e governança; burocratas, muitas vezes, medem sucesso pelo volume de dinheiro gasto. A diferença não é ideológica, é prática.
ANÁLISE FORTIS
A estratégia nigeriana não é isenta de riscos. O país tem histórico de instabilidade regulatória, mudanças bruscas em taxas de câmbio e corrupção endêmica, fatores que afugentam o capital privado. O próprio governo reconheceu, em documento do Ministério das Comunicações obtido pela agência Reuters, que a alavancagem financeira do projeto depende de “garantias de receita mínima” – ou seja, o Estado ainda precisará dar alguma segurança jurídica e contratual aos investidores. O diabo está nos detalhes.
No entanto, o mérito está na direção: o Estado como facilitador, não como executor. Na América Latina, exemplos como o do Chile – que privatizou grande parte de sua infraestrutura de banda larga e hoje tem preços de internet entre os mais baixos da OCDE – mostram que o caminho é esse. No Brasil, o governo insiste em manter a Telebrás como estatal deficitária, enquanto a Anatel demora anos para aprovar licenças que poderiam ser concedidas em semanas.
CONTRAPONTO
Críticos do modelo apontam que a dependência de capital privado pode deixar áreas de baixo retorno comercial – como o interior rural e comunidades remotas – desassistidas. O argumento tem base factual: nos Estados Unidos, o plano de banda larga rural Bill Clinton/Trump/Biden sempre dependeu de subsídios federais justamente porque o mercado, sozinho, não tem incentivo para chegar onde o lucro é escasso. A Nigéria terá que resolver essa equação com algum mecanismo de obrigações de cobertura universal, ou corre o risco de conectar apenas as grandes cidades e regiões mais ricas.
Por Renan Filho · 2026-09-24