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Economia

Governo nigeriano contrata 4 mil influenciadores para vender obras: marketing ou propaganda eleitoral?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

O governo federal da Nigéria anunciou a contratação de 4 mil influenciadores digitais para promover projetos de infraestrutura. A medida levanta dúvidas sobre eficiência do gasto público e possível uso eleitoral de recursos.

O governo nigeriano, sob a administração do presidente Bola Tinubu, revelou um plano ambicioso de comunicação: contratar 4 mil influenciadores digitais para divulgar obras de infraestrutura em todo o país. A iniciativa, anunciada pelo Ministério da Informação e Orientação Nacional, visa combater a desinformação e aumentar a transparência sobre os projetos do programa "Renewed Hope Infrastructure Development Fund".

Segundo comunicado oficial do ministério, os influenciadores serão selecionados em todas as 36 unidades federativas da Nigéria, incluindo o Distrito Federal de Abuja. Cada profissional receberá treinamento e material de apoio para produzir conteúdo sobre estradas, ferrovias, usinas de energia e sistemas de irrigação. O custo total estimado do programa é de 10 bilhões de nairas (aproximadamente US$ 6,2 milhões), conforme reportagem do jornal nigeriano The Punch.

O ministro da Informação, Mohammed Idris, defendeu a medida em declaração à imprensa: "Precisamos que os nigerianos vejam com seus próprios olhos o que está sendo construído. Os influenciadores são pontes entre o governo e o cidadão comum." A justificativa oficial é que a mídia tradicional não alcança áreas rurais e que as redes sociais têm maior penetração entre jovens.

Por que isso importa? A Nigéria enfrenta uma crise fiscal grave. A dívida pública ultrapassou 87 trilhões de nairas (cerca de US$ 54 bilhões), e o serviço da dívida consome mais de 90% da receita do governo federal, segundo dados do Debt Management Office. Em um cenário de arrocho, gastar milhões com influenciadores soa, no mínimo, contraditório. Enquanto isso, o setor privado reclama de falta de crédito e juros altos, e a inflação corroeu o poder de compra da população.

Análise FORTIS: A lógica de livre mercado sugere que o governo deveria se concentrar em suas funções essenciais — segurança, justiça e regulação básica — e deixar a infraestrutura para a iniciativa privada, quando possível. Em vez disso, o Estado nigeriano escolhe gastar com marketing digital. Não há evidência de que influenciadores aumentem a eficiência de obras públicas. Pior: o programa pode virar cabide de empregos para aliados políticos e ferramenta de propaganda eleitoral. As eleições gerais na Nigéria estão previstas para 2027, e Tinubu já sinalizou que buscará reeleição. Qualquer cidadão com acesso à internet pode perguntar: por que não usar esses 10 bilhões de nairas para reduzir impostos sobre combustíveis ou subsidiar crédito para pequenas empresas?

Contraponto: defensores do programa argumentam que a transparência ajuda a combater a corrupção — um problema endêmico na Nigéria, que ocupa a 145ª posição no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional. Se os influenciadores mostrarem obras inacabadas ou de baixa qualidade, a pressão pública pode forçar melhorias. Além disso, a Nigéria tem uma população jovem e conectada: 80% dos nigerianos com menos de 35 anos usam redes sociais. Ignorar esse canal seria um erro de comunicação. No entanto, o contraponto esbarra na realidade: o governo não apresentou métricas claras de sucesso. Como medir se o investimento gerou mais transparência ou apenas mais barulho? Sem indicadores objetivos, o programa parece mais um gesto político do que uma política pública séria.

A verdade factual é que a Nigéria precisa de reformas estruturais, não de influenciadores. O país gasta 25% do PIB com setor público, mas entrega serviços piores que países com carga tributária menor. O programa de influenciadores é sintoma de um Estado que prefere controlar a narrativa a corrigir distorções. Enquanto isso, estradas continuam esburacadas, a eletricidade falha 12 horas por dia em média, e o desemprego juvenil supera 40%. Se o governo quer mostrar resultados, que mostre obras concluídas no prazo e dentro do orçamento — não stories no Instagram.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.