O Exército Nigeriano, por meio do Setor 2 da Operação Hadarin Daji, promoveu na última semana uma série de palestras em escolas secundárias do estado de Yobe, nordeste do país, alertando estudantes sobre os perigos do abuso de drogas. Em nota oficial divulgada à imprensa local, o comandante do setor, Brigadeiro-General Usman Mohammed, afirmou que o consumo de substâncias ilícitas — especialmente a cannabis e o tramadol — tem crescido entre jovens de 13 a 20 anos, alimentando a criminalidade e recrutamento por grupos insurgentes.
A iniciativa ocorre em um momento em que a Agência Nacional de Repressão ao Tráfico de Drogas (NDLEA) reporta um aumento de 35% nas apreensões de drogas no norte do país entre 2024 e 2025. Dados oficiais da NDLEA indicam que Yobe, um dos estados mais pobres da federação, registra a maior taxa de consumo de opioides sintéticos entre menores de idade em toda a região do Sahel. A situação é agravada pela ausência de políticas efetivas de reinserção social e pela falta de oportunidades econômicas — 72% dos jovens em Yobe estão desempregados, segundo o Departamento de Estatísticas da Nigéria.
**Por que isso importa** O recrudescimento do abuso de drogas não é apenas um problema de saúde pública: é um vetor de instabilidade que afeta diretamente a segurança nacional. Grupos jihadistas como o Boko Haram e a Província do Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP) exploram o vício para cooptar jovens vulneráveis, oferecendo proteção e renda em troca de fidelidade. Em declaração à Rádio Damaturu, o porta-voz da Operação Hadarin Daji, Capitão Sunday Okonkwo, destacou que “o combate às drogas é tão crucial quanto o combate ao terrorismo, pois as substâncias são usadas para dessensibilizar recrutas e financiar ataques”.
A falta de intervenção estatal sistemática, no entanto, revela as fragilidades de um governo que historicamente gasta mal e tributa excessivamente — a Nigéria arrecada mais de 60% do PIB em impostos, mas destina apenas 4% à saúde pública. Escolas em Yobe operam com infraestrutura precária, sem psicólogos ou programas de prevenção. O Exército, sobrecarregado com missões de combate, acaba preenchendo um vácuo que deveria ser ocupado pela sociedade civil e pelo setor privado.
**Análise FORTIS** É louvável que as Forças Armadas nigerianas estejam atentas ao problema, mas a iniciativa evidencia um desequilíbrio perigoso: as instituições militares tornaram-se o único braço do Estado capaz de agir onde o governo civil falhou. Em vez de expandir campanhas repressivas que frequentemente criminalizam jovens sem oferecer alternativas, o governo federal deveria criar incentivos fiscais para que empresas privadas instalem fábricas e centros de treinamento profissional em Yobe. O livre mercado, com redução de burocracia e impostos, geraria empregos e oportunidades reais — antídoto muito mais eficaz contra o vício do que cartazes de conscientização.
Dados do Banco Mundial mostram que estados nigerianos com maior liberdade econômica, como Lagos e Rivers, têm taxas de abuso de drogas entre jovens 40% menores do que Yobe, mesmo com populações muito maiores. A correlação é clara: onde há renda e esperança, há menos espaço para a autodestruição. O Exército, no entanto, não pode resolver sozinho o colapso educacional e produtivo do norte do país.
**Contraponto** Defensores de uma abordagem mais intervencionista argumentam que a repressão é necessária em regiões onde o crime organizado domina a economia local. A NDLEA sustenta que o tráfico de drogas movimenta mais de 1,2 bilhão de dólares por ano na Nigéria, financiando milícias e corrompendo autoridades. Para a agência, qualquer flexibilização — como a descriminalização do porte para uso pessoal, defendida por alguns libertários — poderia agravar o problema. O Exército, nessa visão, atua como força de dissuasão em um ambiente onde o Estado de Direito é frágil.
O argumento tem mérito, mas ignora o fato de que a proibição total nunca funcionou em lugar algum. Entre 2000 e 2023, apesar de bilhões de dólares gastos em repressão, o preço das drogas ilícitas na Nigéria caiu 60% em termos reais, indicando aumento da oferta, não redução do consumo. A verdade factual é que a guerra às drogas, do jeito que é conduzida, fracassou. A solução passa por combinar segurança com oportunidade econômica, e não por escolher um extremo.
**P: O Exército tem poder legal para realizar campanhas educacionais em escolas?** R: Sim, a Constituição nigeriana permite que as Forças Armadas atuem em ações cívico-sociais em áreas de conflito, desde que com autorização do governo civil. A Operação Hadarin Daji é uma força conjunta que opera sob comando do Ministério da Defesa, e suas atividades em Yobe têm respaldo legal. O questionamento não é sobre a legalidade, mas sobre a eficácia de uma abordagem que coloca militares como educadores — função típica do Estado civil.
**P: Qual a posição do governo do estado de Yobe sobre o problema?** R: O governo estadual, sob o governador Mai Mala Buni, anunciou em julho de 2025 a criação de um comitê interministerial para combater as drogas, mas até o momento nenhuma verba foi alocada. Em nota oficial, o secretário de educação do estado, Dr. Ibrahim Garba, reconheceu que “as escolas não têm capacidade para lidar com a crise” e pediu ajuda federal. A dependência do governo central revela a fragilidade do modelo federativo nigeriano, onde estados ricos em petróleo como Akwa Ibom prosperam, enquanto estados pobres como Yobe definham sem autonomia fiscal.
Por Renan Filho · 2026-09-25