Em uma demonstração de que a política nigeriana continua a se reorganizar em torno de interesses práticos, ex-integrantes do PDP — o partido que governou o país por 16 anos — e membros do ADC estão se articulando para entregar uma expressiva votação ao presidente Tinubu e ao senador Yayi, ambos da aliança governista. A meta de 100 mil votos foi divulgada por líderes do movimento em comunicado à imprensa nesta terça-feira.
O grupo, autodenominado “Coalizão pela Continuidade e Progresso”, argumenta que a gestão de Tinubu, embora marcada por reformas impopulares como a remoção do subsídio aos combustíveis, gerou avanços na arrecadação e na atração de investimentos. “Vemos no presidente a firmeza necessária para equilibrar as contas públicas e abrir a economia”, declarou um dos porta-vozes da coalizão, que pediu anonimato por não estar autorizado a falar oficialmente.
A aliança inclui figuras conhecidas do antigo PDP, especialmente do estado de Ogun, onde o senador Yayi é uma liderança consolidada. Yayi, que venceu a eleição para o Senado em 2023 pela legenda do APC (All Progressives Congress), tem se destacado por sua atuação em comissões de infraestrutura e comércio. Para os ex-petistas, a adesão à candidatura de Tinubu e Yayi não representa traição ideológica, mas uma aposta na governança baseada em dados.
Por que isso importa? A movimentação sinaliza que o eleitorado nigeriano, cansado de promessas vazias e de um Estado que gasta mal e tributa demais, começa a valorizar resultados concretos. A Nigéria, maior economia da África, enfrenta desafios crônicos de inflação, desemprego e insegurança. No entanto, as reformas de Tinubu — incluindo a unificação cambial e a liberalização do setor de petróleo — começam a mostrar frutos, como o aumento da receita fiscal sem elevação de alíquotas.
Análise FORTIS: A união de ex-PDP e ADC não é uma novidade na política africana, mas reflete uma tendência global de enfraquecimento das clivagens partidárias tradicionais. O liberal-conservador defende que o Estado mínimo e o livre mercado são caminhos para o desenvolvimento, independentemente da sigla. A coalizão acerta ao focar em eficiência e não em fidelidade cega a partidos. Contudo, é preciso cautela: 100 mil votos em um país de mais de 90 milhões de eleitores registrados é uma gota no oceano. A meta pode ser mais simbólica do que decisiva.
Contraponto: Críticos apontam que a aliança é oportunista e que os ex-PDP estão apenas buscando cargos e benesses. A corrupção endêmica na Nigéria não desaparece com mudanças de legenda. Dados da Transparência Internacional mostram que o país caiu no Índice de Percepção da Corrupção nos últimos dois anos. Para os céticos, a coalizão ignora os problemas estruturais e serve apenas para perpetuar uma elite política que sempre se reveza no poder.
A verdade factual, no entanto, é que a economia nigeriana cresceu 3,2% no último trimestre, impulsionada por serviços e agricultura. O déficit fiscal caiu de 6,1% para 4,9% do PIB, segundo o Ministério das Finanças. Esses números, ainda que modestos, dão lastro à narrativa de que as reformas estão no caminho certo. O eleitor, ávido por transparência, merece saber que não há almoço grátis: subsídios distorcem preços, e gastos públicos ineficientes só aumentam a dívida.
Por Renan Filho · 2026-09-25