Uma declaração do ex-vice-chanceler da Lagos State University (LASU), Professor Olanrewaju Fagbohun, gerou forte controvérsia na Nigéria nos últimos dias, levando sua assessoria a emitir uma nota de esclarecimento. Em publicação nas redes sociais, o porta-voz do ex-reitor afirmou que suas falas foram “tiradas de contexto” e que ele não defendeu um aumento imediato das mensalidades para o valor de ₦1 milhão (cerca de R$ 7.000) por ano letivo, mas sim apontou a necessidade de se repensar o modelo de financiamento das universidades públicas.
A declaração original de Fagbohun ocorreu durante um painel sobre o futuro do ensino superior na Nigéria, promovido por uma fundação privada. Segundo relatos de participantes, o ex-reitor teria dito que, para uma universidade oferecer ensino de qualidade internacional, sem depender exclusivamente de verbas governamentais insuficientes e corruptas, a mensalidade real por aluno deveria girar em torno de ₦1 milhão. A fala rapidamente viralizou, gerando indignação em um país onde o salário mínimo federal é de aproximadamente ₦70.000 por mês (cerca de R$ 500) e onde mais de 60% da população vive com menos de US$ 2 por dia.
O porta-voz de Fagbohun, em nota oficial, esclareceu que o ex-reitor “não está propondo que as universidades públicas cobrem ₦1 milhão amanhã”. A nota argumenta que ele apenas fez uma análise de custos para ilustrar o subfinanciamento crônico do setor. “O professor Fagbohun dedicou sua carreira a expandir o acesso à educação. Sua fala foi um diagnóstico, não uma prescrição”, diz o texto.
Por que isso importa: A controvérsia toca no calcanhar de Aquiles do sistema educacional nigeriano e de boa parte dos países em desenvolvimento. A LASU, uma das maiores universidades estaduais da Nigéria, cobra atualmente cerca de ₦100.000 a ₦250.000 por ano, dependendo do curso. O valor de ₦1 milhão representa um salto de 4 a 10 vezes. No entanto, o custo real por aluno em universidades públicas bem administradas ao redor do mundo, incluindo instituições públicas em países como Alemanha e Noruega, frequentemente supera o equivalente a US$ 10.000 a US$ 20.000 anuais. A diferença é coberta por impostos e gestão eficiente.
Análise FORTIS: A reação visceral à fala do ex-reitor revela um problema estrutural que transcende a Nigéria. O Estado nigeriano, assim como o brasileiro, falhou duplamente: tributa mal a economia informal e gasta mal os recursos arrecadados. O orçamento da educação na Nigéria, apesar de ter aumentado nominalmente, ainda representa menos de 10% do PIB em termos de eficiência de gasto, com enormes perdas por corrupção e burocracia. A solução liberal-conservadora para este dilema não é simplesmente aumentar a mensalidade e excluir os pobres, como alguns críticos apressadamente acusaram Fagbohun de sugerir.
A verdade factual é que o modelo atual é insustentável. Universidades públicas nigerianas estão sucateadas, com greves frequentes de professores (as ASUU strikes são lendárias) e laboratórios obsoletos. Manter uma mensalidade artificialmente baixa via subsídio estatal não garante qualidade; apenas garante que o pouco recurso existente seja mal distribuído, muitas vezes beneficiando alunos de classe média que têm acesso às vagas mais concorridas. O caminho do livre mercado e do estado mínimo não é a desregulamentação total, mas sim a criação de um sistema híbrido: voucher educacional para alunos de baixa renda, isenção fiscal para doações privadas às universidades, e gestão profissionalizada das instituições públicas, com metas claras de desempenho.
Contraponto: Críticos do ex-reitor, como líderes do movimento estudantil nigeriano, argumentam que a fala de Fagbohun, mesmo que contextualizada, é insensível à realidade de milhões de jovens. “Dizer que a mensalidade deveria ser de ₦1 milhão é dizer que apenas os filhos dos ricos podem estudar”, declarou um representante da União Nacional dos Estudantes Nigerianos (NANS) em entrevista à Rádio Lagos. Eles defendem que o governo federal e estadual aumentem os impostos sobre grandes corporações e realoquem gastos militares para a educação, uma visão que, na prática, esbarra na ineficiência estatal e na corrupção endêmica. A FORTIS reconhece que a dor do aumento de custos é real, mas aponta que a solução estatizante já foi testada por décadas e falhou.
Por Renan Filho · 2026-09-23