O governo do estado de Ekiti, na Nigéria, realizou a distribuição de 20 veículos destinados ao fortalecimento da supervisão das escolas primárias locais. A ação, conduzida pelo Conselho Estadual de Educação Básica Universal (Ekiti SUBEB), visa ampliar a capacidade de monitoramento das unidades de ensino na região. A entrega dos veículos foi anunciada em publicação nas redes sociais e repercutida pela imprensa local.
Na prática, a medida representa um esforço concreto para combater um dos males crônicos da educação pública na África subsaariana: a ausência de supervisão eficaz. Segundo dados do Banco Mundial, a taxa de ausência de professores em escolas primárias nigerianas chega a 15% em áreas rurais, o que compromete diretamente a qualidade do ensino. Veículos adequados permitem que supervisores visitem escolas remotas com mais frequência, reduzindo o espaço para negligência e improviso.
No entanto, o liberal-conservador que enxerga o Estado pelo prisma da eficiência não pode se contentar com o anúncio de compra de veículos. A pergunta que fica no ar é: qual o custo total da operação? Quantos supervisores serão destacados? Qual a meta mensal de visitas às escolas? Sem métricas claras e metas verificáveis, a distribuição de veículos pode se tornar apenas mais um item de despesa sem impacto mensurável na aprendizagem.
A experiência africana e latino-americana mostra que a mera aquisição de infraestrutura não resolve problemas estruturais. Em diversos países, a compra de veículos oficiais se transforma rapidamente em privilégio pessoal de burocratas, em vez de ferramenta de trabalho. O risco de desvio de finalidade é real e precisa ser enfrentado com transparência e controle social.
Por outro lado, há um aspecto positivo que merece destaque: a iniciativa sinaliza que o governo estadual reconhece a importância da supervisão presencial. Em tempos de digitalização e plataformas online, alguns gestores públicos cometem o erro de acreditar que o monitoramento remoto substitui a presença física. A realidade educacional nigeriana, marcada por infraestrutura precária e baixa conectividade, exige olhar humano e presença constante.
Do ponto de vista do livre mercado, o ideal seria que a supervisão escolar fosse terceirizada para empresas especializadas ou organizações da sociedade civil, com contratos baseados em desempenho e metas objetivas. O Estado poderia atuar como regulador e avaliador, e não como executor direto de serviços que demandam logística complexa. Essa abordagem, contudo, é raramente adotada em países em desenvolvimento, onde o setor público tende a monopolizar atividades que poderiam ser delegadas.
Os críticos da terceirização argumentam que a supervisão educacional é uma função essencialmente estatal, pois envolve poder disciplinar sobre servidores públicos. Mas essa visão ignora que a função reguladora do Estado pode ser exercida por meio de contratos bem desenhados, com cláusulas de sanção e premiação que incentivem resultados. A experiência chilena, no campo da inspeção sanitária, e a britânica, na inspeção escolar, demonstram que é possível combinar participação privada com controle estatal efetivo.
No caso específico de Ekiti, a aquisição dos veículos não precisa ser demonizada, mas deve ser acompanhada de indicadores rigorosos. A população local precisa saber quantas escolas serão visitadas por semana, quantos professores ausentes serão identificados e que providências serão tomadas a partir dessas constatações. Sem esse compromisso público, a medida corre o risco de naufragar na mesmice da gestão incompetente que assola tantos governos ao redor do mundo, incluindo o Brasil.
O governador de Ekiti, Biodun Oyebanji, tem feito movimentos na direção certa ao priorizar educação e infraestrutura. Entretanto, a boa intenção precisa vir acompanhada de transparência radical. A publicação dos relatórios de supervisão em plataforma acessível seria um passo importante, permitindo que a imprensa e a sociedade civil fiscalizem o uso dos recursos públicos.
FORTIS NEWS entende que Estado mínimo não significa ausência de ação estatal, mas sim ação estatal focada, eficiente e submetida ao escrutínio público. Se os 20 veículos forem usados para transformar a realidade das escolas primárias de Ekiti, todos saem ganhando. Se, passados doze meses, os relatórios mostrarem as mesmas escolas com os mesmos problemas, teremos mais um caso clássico de desperdício de dinheiro público.
A Nigéria é o maior produtor de petróleo da África e ainda assim ocupa a 103ª posição no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional. A subida de alguns degraus nesse ranking depende de gestos concretos, como este, mas também de forte pressão social e midiática. O caso dos veículos em Ekiti será um teste importante para verificar se a governança local evoluiu para além do discurso.
Que as motocicletas e carros distribuídos percorram, de fato, as estradas de terra batida do interior, chegando às escolas mais remotas, onde o supervisor estadual nunca pôs os pés. Este é o momento de demonstrar que o novo é diferente do velho.
**1. A distribuição de veículos resolve o problema da educação em Ekiti?**
Não resolve sozinha. Veículos são ferramentas, não soluções. A supervisão só trará resultados se for combinada com metas claras, treinamento de supervisores e consequências efetivas para professores ausentes ou escolas mal administradas.
**2. Existe risco de desvio de finalidade dos veículos?**
Sim. É um risco comum nesses casos. Para mitigá-lo, o governo deve tornar público o itinerário dos veículos, implementar rastreamento por GPS e criar canal de denúncia para a população. Sem esses mecanismos, automóveis oficiais tendem a virar transporte particular de burocratas, como já vimos tantas vezes no Brasil e na África.
Por Renan Filho · 2026-09-23