O governo do estado de Cross River, na Nigéria, anunciou nesta semana o lançamento de um programa de treinamento em habilidades de petróleo e gás voltado para 2.000 jovens da região. Segundo nota oficial divulgada pelo gabinete do governador Bassey Otu, a iniciativa faz parte do plano de desenvolvimento econômico do estado e busca preparar mão de obra local para atuar na indústria de óleo e gás, um dos setores mais estratégicos do país.
O programa será executado em parceria com a Nigerian National Petroleum Company (NNPC) e instituições técnicas privadas. Cada jovem selecionado passará por um módulo de seis meses que inclui noções de extração, segurança industrial, logística e operação de equipamentos. Ao final, os participantes receberão certificação e serão encaminhados para vagas em empresas do setor que atuam no estado.
O contexto nigeriano é de desemprego juvenil galopante. Dados do National Bureau of Statistics indicam que a taxa de desemprego entre jovens de 15 a 34 anos ultrapassa 40% no país. Cross River, estado do sudeste com economia baseada em agricultura e turismo, tenta se posicionar como hub de serviços para a indústria petrolífera que opera no vizinho estado de Akwa Ibom e na região do Delta do Níger.
Por que isso importa? A Nigéria depende fortemente do petróleo e gás para suas receitas fiscais e de exportação. No entanto, o setor é dominado pelo estado via NNPC, que historicamente opera com baixa eficiência, corrupção e falta de transparência. Qualquer iniciativa de capacitação que não esteja atrelada a reformas estruturais corre o risco de se tornar mais um programa assistencialista sem impacto duradouro.
Análise FORTIS: O treinamento de jovens é, em tese, positivo. A capacitação técnica é um dos pilares do desenvolvimento econômico em uma economia de livre mercado. No entanto, o problema central da Nigéria não é a falta de mão de obra qualificada, mas sim o ambiente de negócios hostil: impostos elevados, burocracia asfixiante, insegurança jurídica e domínio estatal sobre os recursos. O governo de Cross River, ao anunciar esse programa, age como se o gargalo fosse a oferta de trabalho, quando na verdade a demanda por trabalhadores é artificialmente reprimida pela intervenção estatal.
Dados oficiais mostram que a NNPC, principal empregadora do setor, tem margens de lucro pífias e é frequentemente acusada de má gestão. Em 2023, a empresa registrou prejuízo operacional de US$ 1,2 bilhão, segundo relatório da própria companhia. Ou seja, o dinheiro público usado para financiar esse treinamento poderia ter sido investido em redução de impostos ou em infraestrutura que atraísse capital privado.
Além disso, o programa atende a apenas 2.000 jovens em um estado com população de mais de 3 milhões de habitantes. Embora seja um número relevante para a mídia, é insignificante diante da escala do desemprego. A verdadeira solução viria da abertura do setor de petróleo e gás à concorrência privada, com redução da participação da NNPC e eliminação de subsídios que distorcem o mercado.
Contraponto: Críticos do governo apontam que iniciativas semelhantes já foram lançadas em outros estados nigerianos, como Rivers e Delta, e tiveram baixa taxa de absorção no mercado formal. Segundo reportagem do jornal local The Guardian Nigeria, apenas 30% dos jovens treinados em programas anteriores conseguiram emprego formal na indústria. Os demais retornaram ao subemprego ou à informalidade.
O governador Bassey Otu, em declaração à imprensa local, afirmou que o programa terá acompanhamento e que o estado firmou acordos com empresas privadas para garantir vagas. No entanto, não foram divulgados os nomes das empresas nem a quantidade de postos de trabalho garantidos. A ausência de transparência é um sinal de alerta.
Para o FORTIS NEWS, a iniciativa de Cross River não deve ser descartada, mas precisa ser analisada com ceticismo. O livre mercado exige que o Estado crie condições para que o setor privado invista e contrate, e não que o próprio Estado se torne o grande empregador ou treinador. Programas de capacitação são bem-vindos, desde que não sejam usados como cortina de fumaça para a falta de reformas.
Por Renan Filho · 2026-09-25