O ex-governador de Anambra e figura de proa da oposição nigeriana, Peter Obi, usou suas redes sociais na última quinta-feira (24) para declarar que não há qualquer desavença pessoal com o atual mandatário do estado, Chukwuma Soludo, em relação ao debate sobre a dívida pública local. A manifestação ocorre semanas após Soludo afirmar que Anambra herdou uma dívida de aproximadamente 85 bilhões de nairas (cerca de US$ 55 milhões) de gestões anteriores, incluindo a de Obi.
Em uma postagem no X (antigo Twitter), Obi escreveu: 'Não tenho nenhuma desavença com o governador Soludo. Minha preocupação sempre foi o desenvolvimento da Nigéria e a responsabilidade fiscal. Se há divergências sobre números, que sejam resolvidas com transparência, não com ataques pessoais.' A declaração foi acompanhada de um pedido para que o debate se concentre em políticas que gerem empregos e reduzam a pobreza, temas centrais de sua campanha presidencial de 2023.
O episódio começou quando Soludo, em entrevista à rádio local Rhythm 93.7 FM em agosto, listou dívidas contraídas pelos governos de Peter Obi (2006-2014) e de Willie Obiano (2014-2022), somando cerca de 35 bilhões de nairas em empréstimos bancários e 50 bilhões em contratos de parceria público-privada pendentes. Na ocasião, Soludo argumentou que o estado estava 'quebrado' e que precisava de medidas drásticas para equilibrar as contas.
Obi, por sua vez, já havia rebatido em setembro apresentando documentos da Agência Nigeriana de Gestão da Dívida (DMO) mostrando que Anambra, ao final de seu mandato em 2014, tinha saldo positivo de 500 milhões de nairas em caixa e nenhum empréstimo pendente registrado oficialmente. Agora, porém, o ex-governador optou por uma postura conciliatória, possivelmente para não desgastar sua imagem como estadista e evitar alimentar divisões internas no partido Labour Party, que apoia Soludo em algumas pautas regionais.
Por que isso importa — A polêmica expõe um problema crônico dos estados nigerianos: a falta de transparência fiscal e a cultura de endividamento sem controle. Anambra, um dos menores estados da Nigéria em área, tem uma dívida total estimada em 100 bilhões de nairas (incluindo a gestão Soludo), o que representa cerca de 15% de sua receita anual. Para comparação, a receita interna do estado é de aproximadamente 20 bilhões de nairas por ano, insuficiente sequer para cobrir a folha de pagamento do funcionalismo, que consome 80% do orçamento.
Análise FORTIS — A troca de acusações entre Obi e Soludo é sintomática de um sistema em que gestores públicos gastam além da conta e depois culpam antecessores. Do ponto de vista liberal-conservador, o problema não é apenas a dívida em si, mas a ausência de um Estado mínimo que priorize eficiência. Anambra gasta mal porque tributa demais — a alíquota de ICMS estadual (VAT) está entre as mais altas da região Sudeste da Nigéria — e entrega pouco: infraestrutura precária, educação deficiente e segurança fragilizada. A dívida de 85 bilhões de nairas, seja de quem for, é consequência de um modelo que financia a máquina pública em vez de estimular o empreendedorismo.
Se Soludo quer equilibrar as contas, deveria cortar despesas com cargos comissionados e privatizar empresas estatais deficitárias, como a Anambra Transport Company. Obi, por sua vez, defende um Estado enxuto em seus discursos, mas seu governo (2006-2014) também recorreu a parcerias público-privadas para obras, muitas das quais ainda pendentes de pagamento. Não há herói fiscal em Anambra — há apenas duas décadas de má gestão que o contribuinte paga.
Contraponto — Críticos de Obi apontam que ele foi um dos governadores que mais expandiu a folha de pessoal em Anambra, criando secretarias e agências que hoje asfixiam o orçamento. Dados do Bureau Nacional de Estatísticas da Nigéria mostram que o número de servidores estaduais saltou de 18 mil para 35 mil durante sua gestão. Já Solundo, apesar de prometer cortes, aumentou o endividamento em 15 bilhões de nairas nos primeiros 18 meses de governo, segundo relatório do Banco Central da Nigéria. A verdade factual é que ambos contribuíram para a deterioração fiscal, e a população paga a conta com impostos altos e serviços ruins.
Por Renan Filho · 2026-09-25