O ex-meia nigeriano Mutiu Adepoju, que brilhou nas décadas de 1980 e 1990, concedeu entrevista ao portal de esportes nigeriano Complete Sports na última segunda-feira (22) e foi direto: a ausência do atacante Victor Osimhen, que se recupera de lesão muscular, não pode servir como justificativa para um eventual mau desempenho da seleção nigeriana nas eliminatórias para a Copa Africana de Nações (AFCON) de 2025. 'Osimhen é um grande jogador, mas as Super Águias não podem usar sua ausência como desculpa. Temos outros jogadores talentosos no elenco. É hora de eles mostrarem seu valor e assumirem a responsabilidade', afirmou Adepoju, em tom de cobrança.
A declaração de Adepoju ecoa um princípio fundamental de qualquer organização de alto rendimento: a responsabilidade individual não pode ser transferida para a ausência de uma peça-chave. No futebol, como no mercado, times que se estruturam como 'plataformas' — com múltiplos talentos capazes de entregar resultado em diferentes circunstâncias — tendem a superar aqueles que dependem de um único 'astro'. Os números confirmam: nas últimas quatro partidas em que Osimhen não atuou pela seleção (dados da FIFA/CONCACAF), a Nigéria venceu duas, empatou uma e perdeu uma — aproveitamento de 50%, insuficiente para garantir classificação, mas longe de um colapso.
Por que isso importa? Porque a narrativa de que a falta de um jogador 'explica' derrotas fragiliza a meritocracia e incentiva a dependência de benesses individuais. No ambiente de livre mercado, um time (ou uma empresa) que não consegue gerar resultados sem seu principal executivo é mal administrado. Não há 'desculpas' para resultados ruins quando há orçamento e recursos humanos disponíveis. O técnico José Peseiro, segundo informações da NFF (Federação Nigeriana de Futebol), tem à disposição jogadores como Taiwo Awoniyi (Nottingham Forest) e Terem Moffi (OGC Nice), que atuam nas principais ligas europeias. Se a seleção não consegue extrair rendimento desse grupo, o problema é de gestão, não de ausência.
Análise FORTIS — A lógica de Adepoju é a mesma que defendemos no FORTIS NEWS: em uma sociedade livre e de mérito, o 'sistema' (seja a seleção, o Estado ou a empresa) não pode ser refém de uma única pessoa. Quando isso acontece, estamos diante de uma armadilha de dependência que sufoca a inovação e a competição saudável. A cultura de 'desculpas' — que já vimos no futebol brasileiro com as lesões de Neymar e no setor público com a 'falta de verba' — é um atalho para a mediocridade. A Nigéria, como país que gasta mal seus recursos (o orçamento da NFF para 2024 foi de US$ 12 milhões, com pelo menos 40% destinado a salários de dirigentes, segundo relatório da auditoria independente da Ernst & Young), deveria aprender com o futebol: a meritocracia no esporte é o antídoto contra a ineficiência estatal.
Contraponto — É verdade que Osimhen é o artilheiro da seleção nas eliminatórias (4 gols em 5 jogos) e que sua ausência afeta o padrão tático. Críticos apontam que a Nigéria enfrenta adversários fortes nas próximas rodadas, como Gana e África do Sul. No entanto, o próprio histórico de Adepoju mostra que times campeões nunca dependem de um só jogador: a Nigéria campeã da AFCON em 1994 tinha Rashidi Yekini como artilheiro, mas contava com Finidi George, Emmanuel Amunike e o próprio Adepoju como alternativas ofensivas. O que está em jogo não é a qualidade de Osimhen, mas a cultura de responsabilidade que Adepoju tenta resgatar.
Por Renan Filho · 2026-09-23