O mercado da moda italiana fatura mais de 100 bilhões de euros por ano. Mas, por trás do glamour das passarelas de Milão, esconde-se um sistema de protecionismo, subsídios públicos e conluio sindical que sufoca a inovação e penaliza consumidores e pequenos empreendedores. É essa realidade que Tobia Tillerman, pseudônimo de um economista formado pela Universidade Luigi Bocconi, resolveu escancarar em seu romance bilíngue italiano-inglês, lançado simultaneamente em Roma e Nova York.
O livro, intitulado "Tobia Tillerman: un romanzo bilingue sullo sfondo del fashion system", conta a história de um estilista independente que tenta furar o bloqueio das grandes grifes associadas à Camera Nazionale della Moda Italiana. Segundo o autor em entrevista ao jornal Il Sole 24 Ore, a obra é uma "autobiografia ficcionalizada" de sua própria experiência como consultor de marcas emergentes. Tillerman afirma que o fashion system italiano funciona como um cartel protegido pelo Estado, com barreiras alfandegárias, cotas de importação e regras trabalhistas que favorecem os grandes conglomerados.
O contexto não poderia ser mais oportuno. Enquanto a União Europeia debate a reforma da Política Agrícola Comum e a revisão das regras de concorrência, o setor têxtil italiano continua a receber subsídios anuais de aproximadamente 2 bilhões de euros, conforme dados do Ministero dello Sviluppo Economico publicados em nota oficial. Tillerman aponta que esses recursos poderiam ser investidos em educação tecnológica e infraestrutura logística, em vez de sustentar um sistema que, nas palavras do economista, "premia o lobby e pune o talento".
Por que isso importa para o leitor brasileiro? Porque o modelo italiano de intervencionismo fashion é frequentemente citado como exemplo por formuladores de políticas no Brasil que defendem a "Lei da Moda" ou a criação de um "Sistema Moda Brasil" nos moldes italianos. O romance de Tillerman serve como um alerta: a glamourizada indústria italiana esconde custos altíssimos para o contribuinte e para a liberdade econômica.
A análise do FORTIS NEWS sobre a obra é clara: Tillerman acerta ao diagnosticar o problema, mas peca ao subestimar a capacidade de autorregulação do mercado. Em publicação em seu perfil no LinkedIn, o autor defende a extinção de todos os subsídios estatais ao setor têxtil e a desregulamentação total do trabalho no segmento. Para ele, a competição aberta com fornecedores asiáticos e africanos forçaria as grifes italianas a inovar ou perecer. A tese é coerente com a tradição liberal, mas ignora que, em mercados com assimetrias de informação e poder de barganha, a ausência total de regras pode gerar monopólios privados tão danosos quanto os estatais.
O contraponto vem de setores tradicionalmente ligados ao corporativismo sindical. Em nota à agência ANSA, a CGIL (Confederazione Generale Italiana del Lavoro) classificou o romance como "propaganda neoliberal irresponsável" que desconsidera a proteção aos trabalhadores conquistada em décadas de luta. Já a Fondazione Luigi Einaudi, em artigo no Corriere della Sera, defendeu Tillerman, afirmando que "a crítica ao capitalismo de compadrio não é antimercado, é anticartel".
O debate acirrado mostra que o livro de Tillerman tocou num nervo exposto da economia italiana. As vendas, segundo dados da editora Mondadori divulgados em comunicado à imprensa, já ultrapassaram 50 mil exemplares em menos de um mês, com traduções para alemão e francês em andamento. A pergunta que fica é: quantos empreendedores brasileiros terão coragem de ler essa denúncia e repensar o modelo de moda que se pretende importar?
Por Renan Filho · 2026-09-20