A Europa está sob cerco digital, mas o epicentro do terremoto cibernético fica na Península Itálica. A Agência da União Europeia para a Cibersegurança (ENISA), em publicação em seu site oficial no último dia 12, confirmou o que empresários italianos já sabiam na prática: a Itália registrou o maior número de ataques de ransomware com impacto financeiro severo em todo o bloco, superando Alemanha e França. O custo total estimado para a economia italiana em 2025 beira os € 12 bilhões, considerando resgates pagos, paralisação de produção e perda de dados.
O dado é alarmante, mas não surpreende quem acompanha a relação entre burocracia estatal e vulnerabilidade digital. Pequenas e médias empresas, que representam 99% do tecido produtivo italiano, são as principais vítimas. Conforme nota técnica divulgada pelo Clusit (Associação Italiana para a Segurança Informática), 78% das empresas atacadas não possuíam um plano de resposta a incidentes. A falta de preparo não é acidental: é o resultado de anos de um ambiente de negócios onde a inovação é sufocada pelo peso do Estado.
O governo da primeira-ministra Giorgia Meloni, em declaração à imprensa no início do mês, anunciou um pacote de € 500 milhões para reforçar a cibersegurança nacional, com foco em órgãos públicos e infraestruturas críticas. A medida foi recebida com ceticismo por analistas de mercado. Em publicação em seu perfil no X (antigo Twitter), o economista Carlo Stagnaro, do Instituto Bruno Leoni, classificou a iniciativa como 'um curativo em um ferimento causado pelo próprio sistema'. O problema, segundo ele, não é a falta de dinheiro público, mas a ausência de incentivos para que empresas privadas se protejam por conta própria.
Por que isso importa? Porque o ransomware não é apenas um problema técnico; é um sintoma de uma economia que penaliza o risco calculado e recompensa a acomodação. Na Itália, o custo de contratar um seguro cibernético é proibitivo para a maioria das PMEs, e a burocracia para implementar soluções de segurança é descomunal. Enquanto isso, os criminosos — muitos deles operando a partir de países com baixa cooperação internacional, como Rússia e Coreia do Norte — agem com a velocidade do capitalismo predatório, sem as amarras que prendem as empresas legítimas.
A análise FORTIS aponta para uma verdade inconveniente: o Estado não pode, e não deve, ser o salvador. Cada euro gasto em um fundo público de cibersegurança é um euro que poderia ter sido investido em inovação pelas próprias empresas, se o ambiente regulatório fosse menos hostil. A solução passa por desregulamentação, redução de impostos sobre tecnologia e, acima de tudo, pela responsabilização individual. Uma empresa que perde dados de clientes por negligência deve arcar com as consequências no mercado, não ser resgatada pelo contribuinte.
O contraponto vem de setores que defendem maior intervenção estatal. Em entrevista à Rádio 24, o deputado do Partido Democrático, Stefano Fassina, afirmou que 'a cibersegurança é um bem público que o mercado não consegue prover adequadamente'. Ele defende a criação de uma agência nacional com poderes para auditar empresas privadas e obrigá-las a adotar padrões mínimos de segurança. A proposta, no entanto, ignora a realidade: a burocracia já é o principal vetor de vulnerabilidade. Quanto mais regras, mais lentas as respostas e maior a superfície de ataque.
O relatório da ENISA também revela que os setores mais afetados na Itália são saúde, manufatura e administração pública. Hospitais inteiros foram paralisados por ataques em 2025, com pacientes tendo seus dados sequestrados. Em publicação no site do jornal Il Sole 24 Ore, o especialista em cibersegurança Marco Crepaldi observou que 'a digitalização forçada do sistema de saúde italiano, sem os investimentos correspondentes em segurança, criou um prato cheio para os hackers'. O governo, em vez de aprender com o erro, anuncia mais gastos públicos.
A verdade é que o ransomware floresce onde o Estado é forte e o mercado é fraco. Na Itália, a combinação de altos impostos, regulação excessiva e uma cultura de dependência do setor público cria o ambiente perfeito para a extorsão digital. Enquanto isso, países como Estônia e Holanda, que adotaram políticas de desburocratização e incentivo à cibersegurança privada, apresentam índices de ataque muito menores. A lição é clara: liberdade econômica é a melhor defesa.
O futuro da segurança digital na Itália depende de uma escolha: continuar apostando em um Estado que promete proteção mas entrega vulnerabilidade, ou abrir espaço para que o mercado, com sua capacidade de inovação e adaptação, construa defesas reais. O custo da primeira opção já está sendo pago, em euros e em dados. A segunda opção exige coragem política para enfrentar o establishment burocrático.
Por Renan Filho · 2026-09-22