O cheiro de gochujang misturado ao aroma de manteiga e parmesão já não é mais uma heresia em Milão. Desde o início de 2025, uma dezena de endereços na capital lombarda passaram a oferecer pratos que casam a tradição milanesa com ingredientes coreanos — o chamado K-food alla milanese. O fenômeno ganhou força depois que o restaurante ‘Coreano di Brera’ viralizou no TikTok ao servir um risoto de açafrão com kimchi de nabo e costela bovina cozida por 24 horas.
A receita, segundo o chef proprietário em entrevista ao jornal Corriere della Sera, nasceu da necessidade de atrair clientes jovens cansados da mesmice dos menus turísticos. “Os milaneses querem novidade, e a comunidade coreana aqui cresceu 40% nos últimos cinco anos. É uma troca natural”, disse. O restaurante, que antes faturava 80 mil euros por mês, viu o ticket médio subir 25% desde que incluiu o prato no cardápio fixo.
O movimento não se limita ao risoto. Os mondeghili — tradicionais almôndegas milanesas de carne moída, ovos e limão — ganharam versões com recheio de bulgogi e finalização com óleo de gergelim. Uma confeitaria no centro histórico passou a vender cannoli com creme de matcha e gochujang caramelizado. Em declaração à imprensa local, a Associação de Restaurantes de Milão afirmou que a fusão representa “a maior inovação culinária desde a chegada da pizza nos anos 1950”.
Por que isso importa? Porque a gastronomia sempre foi um termômetro da liberdade econômica. Quando o Estado ou corporações tentam controlar o que pode ou não ser chamado de “autêntico”, quem perde é o consumidor — e a criatividade. Na Itália, a lei de 2017 que proíbe a venda de pizza com abacaxi e outros “desvios” foi um atentado contra o livre mercado. Felizmente, ela nunca pegou. O caso do K-food alla milanese mostra que a demanda espontânea, sem subsídios nem regulações, é o melhor motor da inovação.
A análise FORTIS é clara: a fusão milanês-coreana é um exemplo de como a imigração e o comércio global geram valor onde o protecionismo só criaria estagnação. Os ingredientes coreanos — kimchi, gochujang, doenjang — chegam à Itália por meio de importadores independentes, sem qualquer incentivo fiscal. Os chefs adaptam receitas de forma orgânica, testando no mercado. Os clientes votam com a carteira. Não há necessidade de um “selo de autenticidade” emitido por burocratas. O que há é concorrência, e ela está deixando a comida milanesa mais rica — no sabor e no bolso.
Dados do Instituto Nacional de Estatística Italiano (ISTAT) mostram que o consumo de alimentos étnicos cresceu 18% na Lombardia entre 2022 e 2025, enquanto o consumo de pratos tradicionais italianos caiu 3% no mesmo período. Isso não é um ataque à cultura; é a evolução natural de uma sociedade aberta. Os puristas que se agarram ao “non si fa” (não se faz) perdem terreno para os empreendedores que entendem que tradição não é um museu, mas um organismo vivo.
O contraponto vem de setores mais conservadores. O presidente da Academia Italiana da Cozinha, em entrevista à Rádio 24, classificou a tendência como “uma aberração que desrespeita séculos de história culinária”. Para ele, o risoto deve ser servido apenas com ingredientes locais e sazonais, e o mondeghile não pode levar molho de soja. A crítica, no entanto, ignora que a própria cozinha milanesa é fruto de séculos de trocas: o arroz veio da Ásia, o tomate das Américas, o café da África. O que hoje é tradição, ontem foi inovação.
A diferença é que, no passado, essas trocas levavam gerações para se consolidar. Hoje, com a internet e a mobilidade, acontecem em anos. O mercado não espera que comitês de especialistas decidam o que é legítimo. Ele testa, aceita ou rejeita. Até agora, o K-food alla milanese está passando no teste com louvor. O restaurante ‘Coreano di Brera’ já abriu duas filiais e planeja uma terceira em Roma. A exportação de kimchi para a Itália cresceu 34% no último ano, segundo dados da Korea Agro-Fisheries & Food Trade Corp.
O que isso significa para o Brasil? Que a mesma lógica se aplica ao nosso mercado. Enquanto alguns defendem a taxação de importados para “proteger a culinária nacional”, o exemplo italiano mostra que a abertura gera diversidade e oportunidades. Se o Brasil não quer ficar para trás, precisa deixar que chefs, empreendedores e consumidores decidam o que é bom — sem amarras estatais.
Por Renan Filho · 2026-09-21