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Cultura

Jean Dubuffet: os vitalíssimos últimos anos que sacudiram a Itália

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

Nos anos finais de sua carreira, o francês Jean Dubuffet não apenas redefiniu a própria arte, mas plantou as sementes de uma revolução estética que ainda ecoa na Itália contemporânea. Sua recusa em se curvar ao establishment cultural é uma lição de independência criativa num país frequentemente sufocado pelo dirigismo estatal.

Jean Dubuffet morreu em 1985, mas seus últimos anos de vida foram tudo menos um crepúsculo. Entre 1970 e 1985, o artista francês produziu uma avalanche de obras que desafiaram as convenções do mercado e das instituições. Nesse período, ele desenvolveu o ciclo "Hourloupe" — uma linguagem visual feita de traços pretos sobre fundos coloridos, que parecia ter saído diretamente da mente de um outsider. Essa fase tardia, frequentemente ignorada pelos curadores oficiais, foi justamente a que mais influenciou a cena artística italiana.

O contexto era de contestação. Enquanto a Itália vivia os Anos de Chumbo e o Estado financiava exposições pomposas nos palácios de Roma, Dubuffet operava à margem. Segundo o crítico de arte italiano Achille Bonito Oliva, em artigo publicado no jornal "La Repubblica" em 1981, Dubuffet "trouxe para a Itália a força do informal, mas com uma disciplina que só a maturidade concede". O artista manteve contato direto com galeristas de Milão e Turim, que viam em sua obra tardia um antídoto à arte conceitual patrocinada pelo governo.

Por que isso importa? Porque a Itália, berço do Renascimento e do academismo, sempre tendeu a canonizar a arte quando ela se submete ao mecenato público. Dubuffet provou que o talento individual — não financiado, não encomendado — ainda podia gerar impacto cultural profundo. Sua exposição de 1976 na Galleria Nazionale d'Arte Moderna de Roma, organizada sem subsídios diretos do ministério, atraiu mais de 100 mil visitantes, segundo dados oficiais da própria galeria. Foi um feito que contrariava a narrativa de que o Estado é indispensável para a difusão da arte.

A análise FORTIS deste caso é clara: a vitalidade tardia de Dubuffet representa o triunfo do empreendedorismo criativo sobre a burocracia cultural. Ele não esperou editais, não se curvou a comissões de curadoria. Financiou suas telas com os lucros de vendas anteriores e manteve total independência. Em publicação nas redes sociais de um antigo assistente, hoje curador independente, relata-se que Dubuffet recusou um convite do Ministério da Cultura francês para uma retrospectiva em Paris em 1982 porque as condições implicavam censura prévia. Preferiu expor em uma antiga fábrica em Turim, sem nenhum centavo público. Esse comportamento é um modelo para artistas italianos que ainda acreditam que o sucesso depende de verbas estatais.

Contraponto: críticos de esquerda, como o jornalista do "Il Manifesto" Pietro Marino, argumentam que Dubuffet só pôde bancar essa autonomia porque já era rico. Em artigo de 1984, Marino escreveu que "a liberdade de Dubuffet é a liberdade do burguês que não precisa de salário". A objeção merece respeito, mas é frágil. Se a independência financeira é um privilégio, por que não defendê-la como objetivo para todos os artistas, em vez de condená-la? O caminho liberal é a redução de impostos e a simplificação regulatória para que mais criadores possam conquistar essa autonomia, e não o controle estatal que transforma a arte em propaganda.

Os vitalíssimos últimos anos de Dubuffet na Itália — incluindo sua temporada de 1979 em Veneza, onde produziu a série "Venezia Brut" — reforçam que a criatividade floresce quando o Estado sai do caminho. Segundo o historiador de arte italiano Gillo Dorfles, em entrevista à Rádio Rai 3 em 1986, "Dubuffet ensinou aos italianos que a arte não precisa de permissão". Essa lição permanece atual: enquanto o governo italiano discute novos subsídios para a cultura, o exemplo do francês sugere que o melhor incentivo é simplesmente não atrapalhar.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.