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Internacional

França enfrenta nova onda de protestos, mas caos do 17 de outubro não se repete na Itália

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-25

Milhares de manifestantes voltaram às ruas na França neste fim de semana contra a reforma da previdência, mas o cenário de violência generalizada que marcou o 17 de outubro em Paris não encontrou eco na Itália, onde as tensões sociais seguem controladas.

**Lead**

Uma nova maré de manifestações tomou conta de diversas cidades francesas neste sábado, com protestos contra a impopular reforma do sistema de previdência. Enquanto a França registrou confrontos entre a polícia e grupos radicais, a Itália, que no mesmo dia 17 de outubro do ano passado viveu um dos episódios mais violentos de sua história recente com a repressão a um ato estudantil em Roma, assistiu a uma jornada de protestos significativamente mais pacífica e organizada. O contraste entre os dois países acendeu o debate sobre os limites da ação policial e a radicalização dos movimentos sociais na Europa.

**Contexto**

Na França, os sindicatos convocaram uma nova rodada de greves e atos públicos para pressionar o governo de Emmanuel Macron a recuar na elevação da idade mínima para aposentadoria. As manifestações, que reuniram centenas de milhares de pessoas em Paris, Lyon e Marselha, foram marcadas por cenas de tensão. Grupos conhecidos como "black blocs" entraram em confronto com as forças de segurança, resultando em dezenas de detenções e danos ao patrimônio público. A polícia francesa, que nos últimos meses tem sido acusada por organizações de direitos humanos de uso excessivo da força, respondeu com gás lacrimogêneo e jatos d'água.

Do outro lado dos Alpes, a Itália viveu uma realidade distinta. No mesmo dia, milhares de estudantes e ativistas ambientais realizaram uma marcha em Milão e Turim, mas sem qualquer registro de violência. A ausência de confrontos é vista como um alívio para o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni, que desde o início do ano tenta equilibrar uma agenda de reformas com a necessidade de evitar a escalada de conflitos sociais. O contraste com o 17 de outubro de 2025, quando uma manifestação estudantil em Roma foi brutalmente reprimida pela polícia, deixando dezenas de feridos e gerando uma crise política, é evidente.

Naquela ocasião, a repressão desproporcional contra um protesto pacífico de estudantes secundaristas chocou o país. Imagens de jovens sendo arrastados e agredidos por policiais sem identificação correram o mundo, levando a protestos de rua e a uma investigação parlamentar. O episódio, que ficou conhecido como "o caos do 17 de outubro", resultou na demissão do chefe da polícia de Roma e em uma promessa do governo de reformar os protocolos de segurança pública. Um ano depois, a Itália parece ter aprendido a lição.

**Análise**

A diferença de cenários entre França e Itália não é fruto do acaso. Especialistas em segurança pública apontam que, enquanto o governo francês adotou uma postura de linha dura, com a aprovação de leis que restringem o direito de protesto e a utilização de drones e câmeras de reconhecimento facial para identificar manifestantes, a Itália optou por um caminho de desescalada. Após a crise de outubro de 2025, o Ministério do Interior italiano implementou um programa de treinamento para agentes, focado em mediação de conflitos e no uso progressivo da força. Além disso, a polícia italiana tem atuado de forma mais integrada com os organizadores dos protestos, estabelecendo corredores para a manifestação e evitando o cerco a grupos pacíficos.

Outro fator relevante é a natureza dos movimentos. Na França, a reforma da previdência toca em um nervo sensível da sociedade, unindo sindicatos de trabalhadores, aposentados e jovens em uma frente ampla, mas que também atrai facções mais radicais. Na Itália, as pautas atuais são mais difusas, envolvendo desde a crise climática até a precarização do trabalho, mas sem um gatilho único que una toda a oposição. A ausência de um inimigo comum claro, como a reforma de Macron, fragmenta as forças e reduz a capacidade de mobilização de massa.

O impacto dessa diferença vai além das fronteiras nacionais. A União Europeia observa com atenção os dois modelos. Enquanto a França insiste na repressão como ferramenta de controle social, a Itália tenta provar que é possível conter a insatisfação sem sacrificar as liberdades civis. Se o modelo italiano se mostrar sustentável a longo prazo, poderá servir de referência para outros países do bloco que enfrentam ondas de protestos, como Alemanha e Espanha. Por outro lado, se a violência voltar a explodir em Roma, o governo Meloni perderá o capital político conquistado com a pacificação.

**Fontes**

As informações sobre as manifestações na França foram baseadas em relatos da agência France-Presse (AFP) e do jornal Le Monde. Os dados sobre a situação na Itália foram obtidos através de comunicados oficiais do Ministério do Interior italiano e de reportagens do Corriere della Sera e La Repubblica. A análise comparativa entre os dois países utilizou como referência estudos do Instituto para a Segurança e Democracia (ISD) e declarações públicas de especialistas em segurança pública ouvidos pela imprensa europeia.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.