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Cultura

De Martino: Sanremo com voto online e júri estrangeiro, mas sem inteligência artificial. A aposta liberal na concorrência e no talento humano

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

O apresentador Carlo Conti e o diretor artístico Stefano De Martino anunciaram as primeiras mudanças para o Festival de Sanremo 2026: voto popular online, jurados internacionais e veto total a músicas compostas por inteligência artificial. A decisão é um tiro certeiro na burocracia e um abraço à meritocracia.

O Festival de Sanremo, a mais importante vitrine da música italiana, está prestes a passar por uma revolução silenciosa, mas profundamente liberal. Em coletiva de imprensa realizada na terça-feira, o novo diretor artístico Stefano De Martino e o apresentador Carlo Conti apresentaram um pacote de mudanças que, vistas de longe, parecem apenas ajustes técnicos. Na prática, representam uma guinada rumo à concorrência aberta, à desburocratização e à valorização do trabalho humano contra o artificialismo pasteurizado.

A principal novidade é a abertura do voto popular online para a seleção das músicas concorrentes. Até então, o processo era controlado por uma comissão restrita de especialistas e jornalistas, um verdadeiro cartel de opinião que decidia o que o público deveria ouvir. Agora, qualquer cidadão italiano maior de 16 anos poderá votar pela internet, em plataforma com certificação de segurança, para definir parte da grade de competição. Segundo nota oficial da RAI, o voto online representará 30% do peso na decisão final sobre as 24 canções que disputarão o pódio.

A segunda mudança é a introdução de um júri internacional composto por cinco profissionais da indústria fonográfica de países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Brasil. Em declaração à imprensa, De Martino afirmou que o objetivo é "trazer um olhar global sobre a produção musical italiana, sem filtros provincianos". O júri estrangeiro terá peso de 20% na votação final, dividindo espaço com o tradicional júri da sala de imprensa (30%) e o público presente no Teatro Ariston (20%).

A terceira e mais polêmica medida é a proibição explícita de músicas compostas, no todo ou em parte, por inteligência artificial generativa. A regra, segundo o regulamento publicado no site da RAI, define que "todas as obras inscritas devem ser fruto exclusivo da criatividade humana, sendo vedado o uso de sistemas de IA para composição de letras, melodias ou arranjos". A punição para quem descumprir a norma é a desclassificação imediata e a proibição de participar por três edições.

**Por que isso importa**

Para quem acompanha a política cultural italiana, a decisão de De Martino é um sopro de ar fresco em um ambiente muitas vezes dominado por lobbies de gravadoras e pela mesmice estética. Ao abrir o voto online, o festival quebra o monopólio dos críticos e jornalistas, que historicamente favoreciam artistas ligados a grandes selos ou a correntes políticas específicas. O voto popular é a ferramenta mais liberal que existe: transfere o poder do comitê para o indivíduo.

A inclusão de jurados estrangeiros, por sua vez, força a música italiana a competir em padrões globais. Em vez de se contentar com o aplauso fácil de uma plateia doméstica, os artistas precisarão convencer ouvintes de outras culturas. Isso eleva a exigência técnica e artística, algo que o mercado livre faz naturalmente: quem não entrega qualidade, perde espaço.

E a proibição da inteligência artificial é a medida mais corajosa de todas. Enquanto governos e empresas correm para regulamentar a IA com burocracia pesada, De Martino simplesmente diz não. Não se trata de tecnofobia, mas de defesa da propriedade intelectual e do valor do trabalho humano. Em publicação nas redes sociais, o músico e produtor Francesco De Gregori celebrou a decisão: "A música não é um algoritmo. É suor, noite mal dormida, inspiração. Finalmente alguém entendeu isso".

**Análise FORTIS**

A postura de De Martino é um exemplo raro de como a direita liberal — no sentido clássico, não partidário — pode e deve agir no campo cultural. Em vez de pedir subsídios ou protecionismo estatal, o festival aposta em mais concorrência (voto popular), mais exposição a padrões externos (júri internacional) e mais respeito à propriedade intelectual (veto à IA). É o oposto do que fazem os estatistas, que querem controle centralizado e cotas.

O veto à inteligência artificial, em particular, merece destaque. Diferentemente de países que tentam criar comitês de ética e licenças obrigatórias para uso de IA — o que só engorda a burocracia e favorece grandes corporações —, a Itália escolheu um caminho mais simples: a proibição contratual. Se o artista quiser usar IA, que vá para outro festival. Sanremo será um santuário do trabalho humano. Isso é liberalismo de verdade: liberdade para criar, mas também liberdade para escolher com quem competir.

**Contraponto**

É claro que a decisão não é unânime. Associações de músicos independentes, como a Audiocoop, criticaram o voto online, argumentando que artistas com menos recursos financeiros não conseguirão mobilizar grandes campanhas digitais. Em entrevista ao jornal La Repubblica, o presidente da entidade, Marco Rovelli, disse que "o voto popular favorece quem já tem fama e dinheiro para contratar agências de marketing".

A crítica tem algum fundamento, mas parte de uma premissa equivocada: a de que o papel do festival é equalizar resultados, e não premiar talento. Em um mercado livre, a fama e o dinheiro são conquistados — ou herdados, mas isso é outra discussão. Impedir o voto popular para proteger artistas menos conhecidos é tratar o público como incapaz de discernir qualidade. É paternalismo disfarçado de solidariedade.

Quanto ao veto à IA, há quem diga que a medida é inócua, já que a tecnologia avança rápido demais para ser controlada por regulamentos. O engenheiro de som e produtor Matteo Cantaluppi, em artigo no site MusicTech, argumentou que "a proibição apenas empurrará o uso da IA para a clandestinidade, sem resolver o problema". A observação é pertinente, mas não invalida a decisão. Toda norma tem limites de aplicação. O importante é o sinal político que se envia: a criatividade humana ainda tem valor, e não será substituída por máquinas sem luta.

**Conclusão**

Stefano De Martino e Carlo Conti estão fazendo com Sanremo o que Margaret Thatcher fez com a economia britânica: quebrar cartéis, abrir mercados e defender o mérito. O voto online, o júri estrangeiro e o veto à inteligência artificial são três faces da mesma moeda liberal. Não se trata de modernização pela modernização, mas de resgatar o que há de mais valioso na cultura: a competição leal, o talento individual e a liberdade de escolha.

O festival de 2026 promete ser o mais disputado e imprevisível dos últimos anos. E, para quem acredita que o mercado é o melhor juiz da qualidade, será também o mais justo.

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**1. Como funcionará o voto online e há risco de fraudes?** Segundo a RAI, o voto será realizado por meio de plataforma digital com autenticação via SPID (Sistema Público de Identidade Digital) ou carteira de identidade eletrônica, garantindo que cada cidadão vote apenas uma vez. A empresa de segurança cibernética italiana Telsy foi contratada para monitorar o sistema em tempo real. O voto online terá peso de 30% na decisão final, dividido igualmente entre as fases de seleção das músicas e a votação para o pódio.

**2. A proibição do uso de IA é aplicável a todos os aspectos da produção musical?** Sim, de acordo com o regulamento divulgado, a proibição abrange composição de letras, melodia, harmonia e arranjos. No entanto, o uso de IA para masterização de áudio ou para ferramentas de edição (como correção de pitch) não está vetado, desde que não interfira no conteúdo criativo original. A RAI informou que uma comissão técnica de três especialistas será responsável por auditar as músicas finalistas, podendo solicitar arquivos de sessão e históricos de edição para verificar a origem das composições.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.