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Economia

Câncer infantil: tratar filho longe de casa custa até 35 mil euros na Itália – e o Estado não paga

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

Famílias italianas enfrentam custos exorbitantes para levar crianças com câncer a centros de referência distantes. O sistema público de saúde, embora universal, deixa lacunas que o mercado poderia preencher com mais eficiência.

O tratamento oncológico infantil na Itália pode custar até 35 mil euros para uma família que precisa se deslocar para longe de casa. Os valores incluem transporte, hospedagem, alimentação e perda de renda dos pais. O dado foi divulgado pela Associação Italiana de Pacientes Oncológicos (AIL) em relatório recente, citando casos reais de famílias que gastam o equivalente a um ano de salário médio.

O problema não é a falta de cobertura do Serviço Sanitário Nacional (SSN). O tratamento médico em si é gratuito. Mas o SSN não cobre despesas indiretas — como viagens e estadias — que se tornam inevitáveis quando o único centro especializado fica a centenas de quilômetros. Na Itália, a concentração de hospitais pediátricos de excelência em regiões como Lombardia e Emilia-Romagna obriga famílias do Sul a se mudarem temporariamente.

Segundo reportagem do jornal Il Sole 24 Ore, cerca de 60% das crianças com câncer na Itália precisam se deslocar para tratamento. O custo médio por família é de 18 mil euros, mas em casos de tratamentos prolongados — como transplante de medula óssea ou imunoterapia — o valor pode ultrapassar 35 mil euros. A AIL estima que 30% das famílias abandonam o tratamento ou adiam consultas por falta de recursos.

Por que isso importa? Porque revela uma falha estrutural no modelo de saúde pública centralizado. O Estado garante o direito ao tratamento, mas não garante o acesso real. A distância vira uma barreira econômica que penaliza justamente quem mora em regiões menos desenvolvidas. O resultado é uma desigualdade geográfica dentro de um sistema supostamente igualitário.

A análise liberal do problema aponta para a necessidade de maior liberdade de escolha e competição. Se hospitais privados pudessem operar sem restrições de credenciamento, centros de referência poderiam surgir em áreas hoje desassistidas. Além disso, seguros de saúde privados que cobrissem despesas de deslocamento reduziriam o risco financeiro das famílias. O mercado de planos de saúde na Itália é pequeno — apenas 10% da população tem cobertura complementar —, justamente porque o SSN desestimula a concorrência com regras rígidas.

Outra saída seria a desoneração fiscal de doações para fundos de auxílio a pacientes. Nos Estados Unidos, organizações como a Ronald McDonald House oferecem hospedagem gratuita a famílias de crianças doentes, financiadas por doações privadas com incentivos fiscais. Na Itália, a burocracia e a carga tributária inibem esse tipo de iniciativa. Segundo o Ministério da Economia italiano, apenas 0,3% do PIB é destinado a filantropia, contra 2% nos EUA.

Contraponto: defensores do sistema público argumentam que o SSN já cobre 99% dos custos médicos e que a solução seria aumentar o financiamento das regiões mais pobres, não abrir espaço para o mercado. A Federação Italiana de Médicos (FNOMCeO) defende a criação de um fundo público para despesas de deslocamento, financiado por impostos sobre tabaco e álcool. No entanto, tal medida aumentaria a carga tributária sem garantir eficiência — como mostram os atrasos no pagamento de reembolsos já existentes, que chegam a 18 meses conforme relatório do Tribunal de Contas italiano.

O debate expõe um dilema clássico: o Estado pode garantir igualdade de acesso apenas com mais gasto público, ou o mercado pode oferecer alternativas mais ágeis e personalizadas? Os 35 mil euros que uma família gasta para salvar um filho são a prova de que o sistema atual falha justamente onde deveria ser mais forte — na proteção dos mais vulneráveis.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.