O tratamento oncológico infantil na Itália pode custar até 35 mil euros para uma família que precisa se deslocar para longe de casa. Os valores incluem transporte, hospedagem, alimentação e perda de renda dos pais. O dado foi divulgado pela Associação Italiana de Pacientes Oncológicos (AIL) em relatório recente, citando casos reais de famílias que gastam o equivalente a um ano de salário médio.
O problema não é a falta de cobertura do Serviço Sanitário Nacional (SSN). O tratamento médico em si é gratuito. Mas o SSN não cobre despesas indiretas — como viagens e estadias — que se tornam inevitáveis quando o único centro especializado fica a centenas de quilômetros. Na Itália, a concentração de hospitais pediátricos de excelência em regiões como Lombardia e Emilia-Romagna obriga famílias do Sul a se mudarem temporariamente.
Segundo reportagem do jornal Il Sole 24 Ore, cerca de 60% das crianças com câncer na Itália precisam se deslocar para tratamento. O custo médio por família é de 18 mil euros, mas em casos de tratamentos prolongados — como transplante de medula óssea ou imunoterapia — o valor pode ultrapassar 35 mil euros. A AIL estima que 30% das famílias abandonam o tratamento ou adiam consultas por falta de recursos.
Por que isso importa? Porque revela uma falha estrutural no modelo de saúde pública centralizado. O Estado garante o direito ao tratamento, mas não garante o acesso real. A distância vira uma barreira econômica que penaliza justamente quem mora em regiões menos desenvolvidas. O resultado é uma desigualdade geográfica dentro de um sistema supostamente igualitário.
A análise liberal do problema aponta para a necessidade de maior liberdade de escolha e competição. Se hospitais privados pudessem operar sem restrições de credenciamento, centros de referência poderiam surgir em áreas hoje desassistidas. Além disso, seguros de saúde privados que cobrissem despesas de deslocamento reduziriam o risco financeiro das famílias. O mercado de planos de saúde na Itália é pequeno — apenas 10% da população tem cobertura complementar —, justamente porque o SSN desestimula a concorrência com regras rígidas.
Outra saída seria a desoneração fiscal de doações para fundos de auxílio a pacientes. Nos Estados Unidos, organizações como a Ronald McDonald House oferecem hospedagem gratuita a famílias de crianças doentes, financiadas por doações privadas com incentivos fiscais. Na Itália, a burocracia e a carga tributária inibem esse tipo de iniciativa. Segundo o Ministério da Economia italiano, apenas 0,3% do PIB é destinado a filantropia, contra 2% nos EUA.
Contraponto: defensores do sistema público argumentam que o SSN já cobre 99% dos custos médicos e que a solução seria aumentar o financiamento das regiões mais pobres, não abrir espaço para o mercado. A Federação Italiana de Médicos (FNOMCeO) defende a criação de um fundo público para despesas de deslocamento, financiado por impostos sobre tabaco e álcool. No entanto, tal medida aumentaria a carga tributária sem garantir eficiência — como mostram os atrasos no pagamento de reembolsos já existentes, que chegam a 18 meses conforme relatório do Tribunal de Contas italiano.
O debate expõe um dilema clássico: o Estado pode garantir igualdade de acesso apenas com mais gasto público, ou o mercado pode oferecer alternativas mais ágeis e personalizadas? Os 35 mil euros que uma família gasta para salvar um filho são a prova de que o sistema atual falha justamente onde deveria ser mais forte — na proteção dos mais vulneráveis.
Por Renan Filho · 2026-09-22