Depois de quase seis décadas atraindo turistas e curiosos para o Fisherman’s Wharf, o museu Ripley’s Believe It or Not! de São Francisco e seu famoso labirinto de espelhos fecharam as portas em definitivo. O anúncio foi feito pela empresa Ripley Entertainment em comunicado oficial no início de setembro de 2026. A data definitiva de encerramento foi 31 de dezembro de 2026, com a unidade operando em regime reduzido até lá. A notícia, embora localizada no coração da Califórnia, carrega um alerta para economias emergentes como a Índia, que veem no turismo e na cultura do entretenimento uma promessa de crescimento.
O museu, inaugurado em 1967, era um dos pontos turísticos mais antigos da cidade. Em publicação nas redes sociais, a Ripley Entertainment agradeceu aos visitantes e funcionários, mas não escondeu os motivos: “o aumento dos custos operacionais, combinado com a deterioração do ambiente de negócios no centro de São Francisco, tornou inviável a continuidade da operação”. A empresa não divulgou números, mas fontes do setor de turismo local apontam que o aluguel comercial na região cresceu 47% nos últimos cinco anos, enquanto o fluxo de pedestres caiu 32% no mesmo período, segundo dados do San Francisco Travel Association.
Por que importa? Para um indiano que acompanha as notícias econômicas, a história do Ripley’s não é apenas um obituário de uma atração turística. É um estudo de caso sobre como políticas públicas mal calibradas – altos impostos, regulações excessivas e tolerância à desordem urbana – podem destruir negócios que duraram gerações. San Francisco, berço do Vale do Silício, transformou-se em um exemplo de como o excesso de intervenção estatal afugenta o capital privado. A cidade impõe um imposto sobre vendas de 8,875%, uma taxa de imposto sobre negócios que pode chegar a 0,6% da receita bruta para empresas de entretenimento, além de um custo trabalhista que inclui salário mínimo de US$ 18,07 por hora (o mais alto dos EUA) e exigências de licenças que demoram até oito meses para serem emitidas.
Análise FORTIS: O fechamento do Ripley’s não é um acidente de percurso. É o resultado previsível de um modelo de gestão pública que prioriza a arrecadação sobre a prosperidade. Na Índia, cidades como Mumbai, Bangalore e Déli enfrentam desafios similares: burocracia pesada para abertura de negócios, alta carga tributária sobre o setor de serviços e uma infraestrutura urbana que degrada a experiência do consumidor. Enquanto São Francisco perdeu uma atração histórica, cidades indianas que conseguirem simplificar licenças, reduzir impostos e garantir segurança pública terão vantagem competitiva para atrair investimentos no turismo e no entretenimento. O governo central indiano, sob a liderança de Narendra Modi, avançou com reformas como a GST, mas estados como Maharashtra e Karnataka ainda impõem taxas estaduais que encarecem operações comerciais. O caso Ripley’s mostra que, sem um ambiente de negócios descomplicado, até mesmo um empreendimento com 59 anos de história pode desaparecer.
Contraponto: Defensores de maior regulação argumentam que impostos altos financiam serviços públicos essenciais, como saúde e educação. No entanto, São Francisco gasta US$ 14 bilhões por ano em orçamento municipal – mais de US$ 16 mil por habitante – e ainda assim enfrenta crise de moradia, ruas sujas e uma população de sem‑teto que ultrapassa 8 mil pessoas. O problema não é a falta de dinheiro, mas a má alocação dos recursos. O Estado gasta mal, tributa demais e entrega pouco. A Índia, que possui uma carga tributária total de aproximadamente 18% do PIB (bem inferior à dos EUA, que beira 28%), pode se beneficiar ao observar que não basta ter impostos baixos em termos percentuais: a eficiência do gasto público é o que realmente determina a qualidade do ambiente de negócios. Se Nova Déli quer evitar que o seu comércio histórico (como o Chandni Chowk ou o bairro de Colaba em Mumbai) siga o mesmo destino, precisa acelerar as reformas estruturais.
Por Renan Filho · 2026-09-24