O senador JD Vance (R-Ohio), um dos nomes mais influentes do conservadorismo americano, foi direto ao ponto nesta quarta-feira: “Não vamos permitir que vocês demitam trabalhadores americanos para substituí-los por mão de obra estrangeira barata.” A declaração, feita durante audiência no Comitê de Comércio do Senado, foi interpretada como um recado direto às grandes empresas de tecnologia e consultoria que dependem maciçamente do visto H-1B.
Vance citou dados oficiais do Departamento do Trabalho dos EUA, que mostram que, entre 2020 e 2025, empresas como Google, Microsoft e a indiana Infosys solicitaram mais de 1,2 milhão de vistos H-1B, enquanto demitiram simultaneamente cerca de 80 mil trabalhadores americanos em funções similares. “Não se trata de escassez de talento. Trata-se de escassez de salários que as empresas estão dispostas a pagar”, afirmou o senador, em referência ao fato de que o salário médio de um profissional de TI contratado via H-1B é até 30% inferior ao de um americano na mesma função, segundo estudo do Economic Policy Institute.
A fala de Vance ocorre em um momento em que o governo Biden – e agora a gestão Trump, que volta à Casa Branca em 2025 – tenta equilibrar a necessidade de inovação com a pressão de uma base eleitoral que vê o H-1B como um dos principais vetores de estagnação salarial da classe média. O programa, criado em 1990 para trazer trabalhadores especializados, transformou-se em uma ferramenta de outsourcing disfarçada. Empresas indianas de terceirização, como TCS, Infosys e Wipro, são as maiores beneficiárias: juntas, receberam mais de 40% dos vistos emitidos nos últimos três anos, segundo dados do USCIS.
Para o economista-chefe da Heritage Foundation, Peter Stollen, citado pelo site conservative, o discurso de Vance representa um afastamento do liberalismo econômico clássico dentro do Partido Republicano. “O livre mercado sempre defendeu que a competição por talento é global. Mas quando o governo distorce esse mercado com um subsídio implícito – já que o visto H-1B permite pagar menos –, o resultado é uma corrida para o fundo do poço. A posição de Vance é, paradoxalmente, a favor de um mercado de trabalho mais livre, sem interferência estatal que favoreça o capital em detrimento do trabalho.”
Por que isso importa? O H-1B é o principal canal de imigração de alta qualificação para os Estados Unidos. Alterá-lo ou restringi-lo teria impactos imediatos no ecossistema de startups, na indústria farmacêutica e na engenharia aeroespacial – setores que dependem de talentos globais. Mas a demissão em massa de americanos enquanto se contratam estrangeiros com salários menores cria uma distorção que o próprio mercado não corrige sozinho, porque as empresas internalizam os lucros e socializam os custos do desemprego via seguros e assistência social.
**Análise FORTIS** Sob a ótica liberal-conservadora, a posição de Vance é correta em seu diagnóstico, mas requer cautela na solução. O Estado não deve microgerenciar contratações, tampouco proteger setores ineficientes. Contudo, o governo americano, ao criar o visto H-1B, criou uma vantagem artificial para empresas usarem mão de obra barata com o pretexto de “escassez de talento”. Se o mercado fosse realmente livre, os salários subiriam até atrair mais americanos para a área de tecnologia – o que já começa a acontecer, com o crescimento dos bootcamps e cursos técnicos. O problema é que o subsídio estatal ao visto impede esse ajuste. Portanto, a solução liberal não é proibir o H-1B, mas eliminar o subsídio: exigir que os salários pagos a estrangeiros sejam iguais ou superiores à mediana da profissão na região, e que as empresas comprovem esforços reais de recrutamento local.
**Contraponto** Defensores do livre mercado irrestrito, como a Cato Institute, argumentam que qualquer restrição ao H-1B é protecionismo disfarçado e prejudica a inovação. Segundo a Cato, cada visto H-1B cria, em média, 1,3 emprego adicional para americanos, porque os profissionais estrangeiros geram demanda e abrem empresas. No entanto, o mesmo estudo admite que os salários dos nativos em áreas com alta concentração de H-1B crescem a uma taxa 5% menor. Ou seja, o bolo cresce, mas a fatia do trabalhador americano encolhe. A questão, portanto, não é preto no branco: é sobre quem arca com os custos da globalização.
Por Renan Filho · 2026-09-24