Em 1888, George Vanderbilt, herdeiro da fortuna ferroviária, iniciou a construção da Biltmore Estate, uma mansão de 250 cômodos em Asheville, Carolina do Norte. Vinte e seis anos depois, em 1914, sua viúva, Edith Stuyvesant Dresser Vanderbilt, vendeu uma parte significativa do terreno para o governo federal dos Estados Unidos, que estabeleceu a Pisgah National Forest. O fato histórico, embora distante no tempo, carrega um ensinamento econômico direto para a Índia contemporânea: a transferência de terras privadas para mãos estatais raramente gera eficiência — e o estado indiano, como tantos outros, é expert em desperdiçar patrimônio.
O caso Vanderbilt não é apenas uma crônica de riqueza americana do século XIX. Ele reflete uma transição que o liberal-conservadorismo enxerga com ceticismo: a expansão do estado sobre a propriedade privada. Nos Estados Unidos, o governo federal usou a terra para conservação ambiental — algo que, em tese, tem mérito. Porém, na prática, a gestão pública de florestas nos EUA enfrenta décadas de subinvestimento, incêndios mal controlados e burocracia que impede o uso econômico sustentável. Um relatório do Congressional Budget Office (CBO) de 2023 estimou que o Serviço Florestal dos EUA gasta US$ 2,5 bilhões por ano em combate a incêndios, com retorno econômico líquido negativo em vastas áreas. Se a terra tivesse permanecido em mãos privadas, como a família Vanderbilt inicialmente planejava, o mercado teria encontrado destinos mais produtivos — turismo, silvicultura controlada ou até reservas ecológicas geridas com eficiência.
Para a Índia, a lição ressoa de forma ainda mais aguda. O país possui um dos maiores estoques de terras sob controle estatal do mundo — cerca de 60% das florestas indianas são geridas pelo governo central ou estadual, segundo dados do Forest Survey of India (2023). O resultado? Desmatamento ilegal descontrolado, conflitos fundiários que paralisam investimentos e uma burocracia que emperra projetos de infraestrutura. Dados do Ministry of Environment, Forest and Climate Change mostram que, entre 2000 e 2020, a Índia perdeu 2 milhões de hectares de cobertura florestal, em grande parte por grilagem e má gestão pública. O estado indiano tributa, gasta mal e entrega pouco — o que o FORTIS NEWS tem documentado repetidamente em sua cobertura.
O exemplo de Vanderbilt, porém, não é unidimensional. Há quem defenda que a venda para o governo foi um ato de responsabilidade ambiental, já que preservou a área de especulação imobiliária desenfreada. E, de fato, a Pisgah National Forest hoje abriga espécies ameaçadas e atrai turismo ecológico. O problema é que, como a maioria dos projetos estatais, o sucesso depende de gestão competente — algo que o setor público raramente fornece de forma consistente. Um estudo de 2022 do Property and Environment Research Center (PERC) mostrou que áreas protegidas geridas com parcerias privadas têm 30% menos focos de incêndio e geram 50% mais receita por hectare do que parques administrados exclusivamente pelo estado. A Índia, com seus índices de corrupção elevados (ocupa o 78º lugar no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional), está longe de ser candidata a exceção.
O contraponto necessário: a Índia não pode simplesmente privatizar terras de forma selvagem, sem marcos regulatórios. Escândalos como o da venda de terras tribais para mineradoras no estado de Odisha mostram que, sem transparência e regras claras, o mercado pode gerar exclusão. Mas o estado atual — com licenças que levam 500 dias para serem emitidas, conforme o Doing Business Report — não é solução, é problema. O que o caso Vanderbilt ensina é que o estado deve ser mínimo e focado em regras de jogo, não em gestão patrimonial direta. A viúva de George Vanderbilt, ao vender para o governo, optou pela via fácil — e o resultado, embora bonito no papel, é ineficiente no longo prazo.
A Índia, que busca crescer 7% ao ano, não pode se dar ao luxo de repetir erros do século XIX. O país precisa de reformas fundiárias que desobstruam a propriedade privada, reduzam a burocracia e permitam que o mercado aloque recursos onde gerem mais valor. Enquanto isso não acontece, a herança de Vanderbilt continuará sendo um monumento não apenas à arquitetura americana, mas ao desperdício que ocorre quando o estado engole o patrimônio privado.
Por Renan Filho · 2026-09-24