**Lead**
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciou nesta terça-feira o envio de unidades do Exército para proteger locais de votação e infraestrutura eleitoral durante as eleições de meio de mandato de 2026. A medida, inédita em tempos de paz, ocorre após o desmonte progressivo da Cybersecurity and Infrastructure Security Agency (CISA), a agência que desde 2018 coordenava a segurança das urnas e dos sistemas de apuração. A decisão de Trump, ainda em seu primeiro mandato, de reduzir drasticamente o orçamento e o pessoal da CISA deixou o país sem uma estrutura centralizada de proteção eleitoral, forçando o Pentágono a intervir.
**Contexto**
A CISA foi criada em 2018, durante o governo Trump, com a missão de proteger infraestruturas críticas — incluindo o sistema eleitoral — contra ataques cibernéticos e físicos. No entanto, após as eleições de 2020, Trump passou a atacar a agência, acusando-a de interferir nos resultados. Em 2021, ele nomeou interventores que reduziram o quadro de analistas de segurança eleitoral de mais de 200 para menos de 30. Em 2023, o orçamento da CISA foi cortado em mais da metade, e a agência deixou de realizar testes de penetração em sistemas de votação e de coordenar treinamentos com estados.
Com a aproximação das eleições de meio de mandato de 2026, que definirão o controle do Congresso e dezenas de governos estaduais, a vulnerabilidade do sistema eleitoral tornou-se evidente. Relatórios de inteligência indicam que grupos estrangeiros e domésticos intensificaram tentativas de desinformação e ataques cibernéticos contra registros eleitorais. Sem a CISA como órgão central, estados como Geórgia, Arizona e Pensilvânia pediram ajuda federal. O Pentágono respondeu com a Operação Escudo Eleitoral, que mobiliza cerca de 5 mil soldados da Guarda Nacional e unidades de ciberdefesa do Exército.
A decisão gerou controvérsia. Críticos apontam que a presença militar em locais de votação pode intimidar eleitores, enquanto defensores argumentam que é necessária para garantir a integridade do processo. O secretário de Defesa, Lloyd Austin, afirmou em comunicado que as tropas atuarão exclusivamente em funções de apoio logístico e cibernético, sem contato direto com eleitores. No entanto, a medida reacende o debate sobre a militarização da segurança eleitoral.
**Análise**
A intervenção do Exército expõe o vácuo deixado pelo desmonte da CISA. Durante anos, a agência funcionou como ponte entre o governo federal e os estados, padronizando protocolos de segurança e compartilhando inteligência sobre ameaças. Sem essa coordenação, cada estado passou a adotar medidas próprias, criando um mosaico de vulnerabilidades. A decisão de Trump de enfraquecer a CISA foi amplamente criticada por especialistas em segurança nacional, que alertaram que isso abriria caminho para interferências.
O impacto imediato é a centralização da segurança eleitoral nas mãos dos militares, algo que a própria CISA sempre evitou. Em 2020, a agência rejeitou propostas de uso de tropas, defendendo que a segurança eleitoral deveria permanecer civil. Agora, o Pentágono assume funções que antes eram civis, criando um precedente preocupante. Analistas apontam que, se a tendência continuar, futuras eleções poderão depender cada vez mais de estruturas militares, fragilizando a separação entre defesa nacional e processo democrático.
Além disso, a medida ocorre em um contexto de crescente polarização. Pesquisas indicam que a confiança dos eleitores no sistema eleitoral caiu nos últimos anos, especialmente entre republicanos que questionam a legitimidade das eleições de 2020. A presença de militares pode ser interpretada por alguns como uma confirmação de que o sistema é inseguro, enquanto outros a veem como uma garantia necessária. O desafio será equilibrar a proteção real contra ameaças com a percepção pública de imparcialidade.
**Fontes**
As informações foram baseadas em comunicados oficiais do Departamento de Defesa dos EUA, relatórios do Government Accountability Office (GAO) sobre o orçamento da CISA, e reportagens do The New York Times e da Associated Press sobre a segurança eleitoral. Dados sobre cortes orçamentários e redução de pessoal foram obtidos de documentos públicos do Congresso americano. A análise de impacto baseia-se em declarações de especialistas em segurança cibernética e ex-funcionários da CISA, citados em veículos como o The Washington Post e a Reuters.
Por Renan Filho · 2026-09-29