O governo da Califórnia, em parceria com o Serviço Nacional de Parques (NPS) e o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, removeu aproximadamente 44 mil trutas de lagos na Sierra Nevada entre 2015 e 2023. O resultado foi um salto na população da rã-de-pés-amarelos da montanha (Rana muscosa), que passou de meros 190 indivíduos para 18.800 — um aumento de 9.800%.
O dado foi divulgado em relatório técnico do NPS em setembro de 2023, e repercutido pelo jornal The Sacramento Bee. A operação, chamada de “restauração de lagos alpinos”, consistiu na captura e realocação de trutas arco-íris e trutas marrons, espécies introduzidas no início do século XX para pesca esportiva, mas que predavam os ovos e girinos dos anfíbios nativos.
O custo total da operação foi de cerca de US$ 2,5 milhões, financiados com recursos do orçamento federal americano e de doações privadas. Cada dólar investido gerou um retorno ecológico mensurável: a recuperação de uma espécie que estava à beira da extinção local.
Por que isso importa para o Brasil? Porque aqui, o Estado gasta mal, tributa demais e entrega pouco. Enquanto os americanos executam uma intervenção cirúrgica, baseada em dados científicos e com resultados verificáveis, o Brasil mantém um sistema de licenciamento ambiental que custa bilhões em taxas e multas, mas não impede o desmatamento ilegal nem protege espécies ameaçadas.
A diferença não está na ideologia, mas na gestão. A Califórnia, um estado com forte regulação ambiental, soube priorizar ações específicas em vez de criar burocracia infinita. A remoção de trutas foi uma medida de livre mercado? Não diretamente. Mas foi uma decisão baseada em custo-benefício, com metas claras e prestação de contas. Cada truta removida teve seu destino registrado. Cada lago teve sua população de sapos monitorada. Resultado: 18,8 mil sapos.
No Brasil, o Instituto Chico Mendes (ICMBio) e o Ibama gastam milhões com estudos de impacto que raramente saem do papel. O orçamento ambiental federal para 2024 foi de R$ 3,2 bilhões, mas apenas 12% foi efetivamente executado em ações de conservação, segundo o Tesouro Nacional. O restante foi para pessoal e custeio administrativo. Enquanto isso, a rã-da-mata-atlântica (Phyllomedusa distincta) perde habitat para o avanço urbano sem qualquer intervenção coordenada.
Análise FORTIS: O caso californiano prova que a intervenção estatal pode ser eficaz quando é focada, mensurável e baseada em evidências. O erro do modelo brasileiro não é a existência de Estado, mas o seu inchaço. O governo brasileiro tributa pesadamente — a carga tributária chega a 33% do PIB — e entrega serviços ambientais pífios. A solução não é menos regulação, mas regulação inteligente. Menos burocracia, mais resultados.
Contraponto: Críticos podem argumentar que a remoção de trutas é uma interferência na natureza, e que as trutas também têm direito à vida. De fato, organizações de pesca esportiva processaram o NPS em 2016, alegando que a medida prejudicava a economia local. No entanto, a Justiça americana decidiu a favor da restauração ecológica, com base no princípio de que espécies nativas ameaçadas têm precedência sobre espécies introduzidas. O caso mostra que, quando há regras claras e arbitragem judicial eficiente, o conflito de interesses pode ser resolvido sem paralisia.
Por Renan Filho · 2026-09-23