A África do Sul apresentou, em comunicado oficial divulgado nesta semana, o Programa Nacional de Restauração de Paisagens e Ecossistemas, que pretende recuperar 100 mil hectares de terras degradadas até 2030. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o plano prevê a aplicação de 80 bilhões de rands (cerca de R$ 4,5 bilhões) em ações de reflorestamento, recuperação de bacias hidrográficas e combate à erosão do solo. O projeto, que será coordenado em parceria com conselhos municipais e organizações não governamentais, promete gerar 250 mil empregos temporários em comunidades rurais.
A iniciativa chega em um momento delicado para a economia sul-africana, que enfrenta crescimento próximo de zero, taxa de desemprego acima de 32% e crise energética crônica. O governo afirma que a restauração ambiental é estratégica para o agronegócio e para a segurança hídrica do país, especialmente após anos de secas severas na região do Cabo. No entanto, a falta de detalhes sobre o modelo de governança e a origem dos recursos levanta suspeitas sobre a real viabilidade do plano.
Por que importa: a África do Sul é a economia mais industrializada do continente e porta de entrada para investimentos estrangeiros no sul da África. Um programa de restauração em larga escala, se bem executado, pode gerar externalidades positivas para o setor privado, como a redução de custos com infraestrutura hídrica e a valorização de terras agricultáveis. Mas o histórico recente do governo de coalizão, marcado por expropriações de terra sem compensação justa e por políticas de nacionalização de setores estratégicos, gera ceticismo no mercado.
Análise FORTIS: a ideia de restaurar ecossistemas é meritória e urgente, mas o caminho escolhido pelo governo sul-africano é um caso clássico de centralização estatal. Em vez de priorizar incentivos fiscais e segurança jurídica para que proprietários rurais e empresas invistam em recuperação voluntária, o plano aposta em um enorme programa de obras públicas financiado pelo Tesouro. Em um país com dívida pública acima de 70% do PIB e com estatais falidas, como a Eskom, a probabilidade de desvio de recursos e ineficiência é altíssima.
O governo sul-africano deveria aprender com o modelo chileno e australiano, onde a restauração de terras é feita por meio de créditos de carbono e parcerias público-privadas com metas verificáveis. Ao invés de prometer empregos temporários, o país deveria criar um ambiente de negócios que permitisse a formação de um mercado de serviços ambientais, no qual fazendeiros e comunidades lucram ao manter a vegetação nativa. Discursos verdes sem reformas pró-mercado são apenas mais uma camada de intervencionismo.
Contraponto: defensores do plano argumentam que a escala do problema exige ação direta do Estado, pois a maioria das terras degradadas está em áreas comunais e sem titulação individual, onde o setor privado não tem incentivo para agir. Segundo o professor de ecologia política da Universidade de Cape Town, em entrevista à Rádio 702, 'sem um programa público estruturante, as comunidades mais pobres ficariam à mercê de iniciativas fragmentadas que nunca alcançam escala'. Ainda assim, mesmo os apoiadores reconhecem a necessidade de mecanismos de transparência e auditoria independente para evitar a repetição dos fracassos de projetos anteriores, como o programa de obras do 'New Deal' sul-africano dos anos 2010.
Se o plano sair do papel, o país terá um trunfo ambiental para apresentar na COP30, em 2025. Mas sem desregulamentação e com o Estado inchado, o discurso ecológico pode virar apenas mais uma desculpa para expandir o controle governamental. Os olhos de investidores e ambientalistas estarão atentos aos primeiros editais de licitação e à definição de indicadores de desempenho.
Por Renan Filho · 2026-09-22