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Economia

Mentan Amran prepara 2 milhões de hectares para etanol: a aposta liberal que o governo ainda não entendeu

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

O ministro da Agricultura, Amran Sulaiman, anunciou a disponibilização de 2 milhões de hectares para cultivo de cana-de-açúcar voltado à produção de bioetanol. A medida pode reduzir a dependência de combustíveis fósseis e impulsionar o agronegócio, mas enfrenta entraves regulatórios que engessam o livre mercado.

O ministro da Agricultura, Amran Sulaiman, anunciou em coletiva de imprensa realizada em Jacarta, no dia 15 de setembro de 2026, a meta de disponibilizar 2 milhões de hectares de terras agricultáveis para o cultivo de cana-de-açúcar destinado à produção de bioetanol. A declaração foi feita durante o lançamento do programa de expansão do setor sucroenergético, em parceria com o Ministério de Energia e Recursos Minerais. Segundo a nota oficial distribuída pelo gabinete do ministro, a iniciativa visa reduzir as importações de gasolina e fortalecer a segurança energética nacional.

A Indonésia, maior economia do Sudeste Asiático, importa cerca de 40% do petróleo consumido internamente, conforme dados da Agência Nacional de Energia (DEN). A produção de etanol a partir de cana-de-açúcar pode substituir entre 10% e 15% das importações já no primeiro ano, caso os 2 milhões de hectares sejam totalmente aproveitados. A meta de Amran é ambiciosa: a área equivale a quase 30% da atual área plantada de cana no país, que hoje gira em torno de 500 mil hectares.

O contexto é propício. O preço internacional do petróleo oscila perto de US$ 90 o barril, segundo a plataforma Investing.com, tornando o etanol competitivo sem subsídios. Um estudo da Universidade Gadjah Mada, publicado pela revista científica Renewable Energy, estima que o bioetanol indonésio pode ser produzido a um custo de US$ 0,45 por litro, contra US$ 0,55 por litro da gasolina importada (preço CIF). O cálculo não considera os subsídios governamentais ao consumo, que tornam o combustível fóssil artificialmente mais barato.

Por que isso importa? Porque a dependência energética é um calcanhar de Aquiles para o desenvolvimento industrial. O gasto anual do governo em subsídios aos combustíveis fósseis chega a US$ 20 bilhões, de acordo com o Instituto de Energia da Indonésia (EIA). A produção local de etanol reduziria esse rombo fiscal e realocaria recursos para setores produtivos, como saúde e educação. Além disso, abriria um mercado de bilhões de dólares para os agricultores e usineiros locais.

A análise do FORTIS NEWS é clara: a lógica liberal aponta para a desregulamentação do setor como o caminho mais rápido para viabilizar os 2 milhões de hectares. Hoje, a produção de cana é controlada por cotas estaduais, exigências ambientais onerosas e taxas de exportação que punem o produtor. Em publicação nas redes sociais, o economista do Centro de Estudos Liberais da Indonésia, Dino Pati Djalal, destacou que a burocracia torna o custo de licenciamento para novas plantações superior ao próprio custo da terra. A remoção dessas barreiras, aliada à abertura para investimento estrangeiro direto, poderia multiplicar a produção em até 5 vezes, segundo simulações do Banco Mundial para o setor.

Entretanto, o governo age com cautela que beira o protecionismo. A regulamentação do mandato de mistura de etanol na gasolina (atualmente entre 5% e 10%, dependendo da região) ainda é facultativa, o que desestimula investimentos de longo prazo. Em declaração à imprensa no Congresso, o deputado do Partido Democrata, Edhie Baskoro Yudhoyono, afirmou que o governo precisa garantir a compra do etanol a preços estáveis, criando um mínimo de segurança jurídica. Para o FORTIS, esse raciocínio é equivocado: o mercado, e não o Estado, deve arbitrar o preço. A fixação artificial de preços cria ineficiências e desestimula inovação, como demonstram os fracassos dos subsídios ao biodiesel no Brasil.

No contraponto, críticos apontam riscos ambientais e sociais. A expansão da cana pode avançar sobre áreas de floresta nativa e Territórios de Povos Tradicionais, ameaçando a biodiversidade e provocando deslocamentos. Em artigo no jornal The Jakarta Post, o ativista do Greenpeace Indonésia, Longgena Ginting, alertou que o governo não apresentou um plano de zoneamento ecológico para as novas plantações. A resposta liberal é que a propriedade privada bem definida e as leis ambientais modernas são mais eficazes para proteger o meio ambiente do que a centralização estatal. O que falta não é terra, mas regras claras que permitam ao investidor respeitar os limites ecológicos sem ser sufocado pela papelada.

O setor privado já sinaliza interesse. A maior usineira do país, a PT Perusahaan Perkebunan Nusantara (PTPN), anunciou em comunicado ao mercado que planeja investir US$ 1,5 bilhão em novas unidades de moagem, caso o governo elimine as cotas regionais. Já a associação de produtores de cana, a INDOCANE, manifestou preocupação com o cronograma, afirmando que a meta de 2 milhões de hectares é factível apenas em 10 anos, não nos 5 prometidos pelo ministro, conforme matéria do jornal Kontan. Essa divergência revela a falta de diálogo entre governo e iniciativa privada.

Para que o programa saia do papel, o governo precisa abandonar o casamento com o planejamento central. Ao invés de definir metas de área, deveria estabelecer um mandato de mistura obrigatório e progressivo de etanol na gasolina (de 5% hoje para 20% em 2030), e deixar que o mercado responda com oferta de cana. Essa é a receita adotada pelo Brasil, onde a produção de etanol explodiu após a desregulamentação do setor na década de 1990, e que hoje representa 40% da matriz energética de transportes. A Indonésia,infelizmente, insiste em controlar cada grão.

O tempo é curto. Com a transição energética global, o mundo demanda cada vez mais biocombustíveis sustentáveis. Se a Indonésia não agir rápido, perderá investimentos para o Brasil, Índia e Tailândia, que já possuem legislações mais amigáveis. A oportunidade dos 2 milhões de hectares pode ser o divisor de águas entre um futuro energético próspero e a estagnação regulatória.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.