O governo da Indonésia, por meio do Ministério da Saúde, anunciou nesta semana a intensificação do monitoramento dos impactos do fenômeno climático El Niño sobre a saúde da população. A iniciativa, batizada de “Perkuat perlindungan” (Fortalecimento da proteção), prevê a ampliação da vigilância epidemiológica em regiões mais afetadas pela seca e pelo calor extremo, especialmente nas ilhas de Java, Sumatra e parte de Bornéu.
Segundo comunicado oficial do Ministério da Saúde indonésio, o El Niño de 2026 já provoca redução de chuvas em até 40% em algumas províncias, aumento de temperatura média entre 1,5 °C e 2 °C e elevação do risco de doenças como dengue, diarreia e infecções respiratórias. O governo afirma que vai distribuir medicamentos, ampliar postos de atendimento e reforçar campanhas de prevenção.
A decisão de Jacarta ocorre em um contexto em que o país busca equilibrar crescimento econômico — que deve alcançar 5,2% do PIB em 2026 — com a gestão de riscos climáticos. A Indonésia é a maior economia do Sudeste Asiático e um dos maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, principalmente devido ao desmatamento e à queima de turfa.
Por que isso importa para o leitor do FORTIS NEWS
A discussão sobre como proteger a população de eventos climáticos extremos não é exclusiva da Indonésia. Países como Brasil, Índia e Austrália enfrentam dilemas semelhantes. A questão central é: a melhor forma de proteger a saúde pública é com mais Estado, mais regulação e mais gasto público, ou com políticas que fortaleçam a capacidade de adaptação autônoma da sociedade?
Dados do Banco Mundial indicam que a Indonésia gasta cerca de 3,1% do PIB com saúde pública, valor inferior à média dos países da OCDE (8,8%), mas superior ao do Brasil (2,9%). Apesar disso, a eficiência do gasto é questionável. Estudo do Instituto de Economia da Universidade da Indonésia (UI) de 2025 aponta que 18% dos recursos destinados à saúde são perdidos por corrupção, má gestão e burocracia ineficiente.
Análise FORTIS: entre a necessidade de ação e o risco do Estado inchado
Não há dúvida de que o El Niño representa uma ameaça real à saúde de milhões de indonésios. O aumento de casos de dengue — que em 2025 já havia crescido 22% em relação a 2024 — exige respostas coordenadas. O problema é quando a resposta governamental se transforma em desculpa para expandir o aparelho estatal sem controle de resultados.
O programa “Perkuat perlindungan” prevê a contratação de 10 mil agentes comunitários de saúde temporários e a compra de 500 mil kits de testagem rápida para dengue e leptospirose. A iniciativa pode ser benéfica se for focada, temporária e sujeita a auditoria. O risco, como mostram exemplos históricos, é que essas contratações se tornem permanentes, engordando a folha de pagamento do Estado sem contrapartida em eficiência.
A experiência brasileira com o programa “Mais Médicos” é ilustrativa: criado em 2013 como resposta emergencial à falta de profissionais em áreas remotas, o programa custou R$ 4,5 bilhões até 2024, com resultados mistos em termos de fixação de médicos no interior e melhoria de indicadores básicos de saúde.
Contraponto: a resiliência via livre mercado
Defensores de uma abordagem liberal apontam que a melhor forma de enfrentar choques climáticos é fortalecer a capacidade de resposta da sociedade civil e do setor privado. Na Indonésia, empresas de tecnologia como a GoTo (controladora do Gojek) já desenvolvem plataformas de telemedicina que podem ser escaladas rapidamente em situações de emergência. Farmácias privadas, que respondem por 70% do mercado farmacêutico indonésio, têm redes de distribuição mais ágeis que o sistema público.
Dados do Ministério da Saúde indonésio mostram que, durante o El Niño de 2023-2024, as regiões com maior presença de clínicas privadas tiveram redução de 30% no tempo médio de atendimento em comparação com áreas atendidas exclusivamente pelo SUS local (chamado BPJS Kesehatan).
A questão não é se o Estado deve ou não agir em emergências. Deve, sim, dentro de seu papel subsidiário. O problema é quando a emergência vira pretexto para expandir o Estado permanentemente, tributando mais e entregando menos.
Por Renan Filho · 2026-09-24