O governo indonésio, por meio do Kemendikdasmen, confirmou a criação de 139 mil novas vagas para professores da rede pública no próximo ano. O anúncio, feito em coletiva de imprensa em Jacarta, visa preencher lacunas deixadas por aposentadorias e pela expansão do ensino básico obrigatório. A Indonésia enfrenta um déficit estimado em 300 mil docentes, segundo dados da própria pasta.
A iniciativa, no entanto, levanta questões estruturais que vão além do número de vagas. O modelo de contratação via CPNS (servidor público concursado) garante estabilidade vitalícia e aposentadoria integral, mas também consome fatias crescentes do orçamento. Em 2026, os gastos com pessoal ativo e inativo já representam 35% das despesas primárias do governo central – valor que deve subir com a nova leva de concursados.
Contexto: a Indonésia é a quarta nação mais populosa do mundo, com 280 milhões de habitantes. O sistema público de educação sofre com salas superlotadas, infraestrutura precária e índices de aprendizado estagnados no PISA 2022. O país figura entre os piores do Sudeste Asiático em matemática e leitura, atrás de Vietnam e Malásia. A resposta do governo, mais uma vez, foi aumentar o contingente de servidores.
Por que isso importa – e preocupa
A decisão ocorre em meio a um processo de reforma administrativa que o presidente Prabowo Subianto vinha sinalizando. Na campanha, ele defendeu a redução do tamanho do Estado e a privatização de serviços não essenciais. No entanto, a pressão sindical e a força do corporativismo do funcionalismo público parecem ter vencido. As 139 mil vagas representam um crescimento de 8% no quadro de professores concursados, o que adicionará cerca de 2,5 bilhões de dólares em despesas anuais recorrentes.
A FORTIS analisa: a narrativa dominante é de que “faltam professores” – e o remédio seria contratar mais. Mas os dados contam outra história. A Indonésia já possui 3,6 milhões de professores na rede pública, uma das maiores proporções por aluno do mundo. O problema não é quantitativo, e sim qualitativo. A má alocação de recursos, a ausência de meritocracia e a proteção excessiva do servidor público produzem um sistema onde o mau profissional não é demitido e o bom não é recompensado.
Países como Singapura e Vietnã, que superam a Indonésia em desempenho educacional, têm menos professores por aluno, mas investem pesado em formação contínua, avaliação rigorosa e liberdade de gestão escolar. A rota indonésia, ao contrário, aposta no inchaço da máquina estatal. A conta virá na forma de impostos mais altos ou endividamento, já que a arrecadação do governo indonésio é limitada por uma base tributária estreita e pela informalidade que atinge 56% da economia.
Contraponto necessário
Defensores da medida argumentam que a Indonésia tem dimensões continentais e mais de 17 mil ilhas, com comunidades remotas onde o setor privado não chega. Nessas regiões, o Estado é o único provedor possível de educação. O aumento de vagas seria uma resposta pragmática à falta de atratividade da carreira docente – salários iniciais de apenas 300 dólares mensais em áreas rurais. Sem concursos, o abandono seria ainda maior.
A crítica procede em parte. Mas a própria lógica do concurso público, com regras rígidas e baixa mobilidade, dificulta a alocação de professores onde eles são mais necessários. Frequentemente, as vagas são preenchidas por candidatos urbanos que nunca se deslocam para o interior, gerando cargos fantasmas. Uma alternativa liberal-conservadora seria a descentralização orçamentária para as escolas, com contratos temporários renováveis por desempenho e bônus para quem atua em regiões de difícil acesso. Isso já é feito com resultados positivos no Chile e em alguns estados do Brasil.
A verdade factual: o déficit de professores na Indonésia é real, mas a solução de contratar 139 mil concursados sem reformas paralelas é ineficiente e insustentável. O governo está adicionando rigidez a um sistema que já sofre de paralisia. O dinheiro do contribuinte indonésio, que paga uma carga tributária de 23% do PIB, merece mais do que a repetição de fórmulas fracassadas.
Por Renan Filho · 2026-09-23