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Gus Ipul rebate acusações de desvio de recursos no Muktamar NU: 'É pura fitna'

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

O ministro da Coordenação da Vida Social e ex-presidente do PTB, Saifuddin Yahya, conhecido como Gus Ipul, classificou como 'fitna' (calúnia) as alegações de que teria desviado recursos públicos durante o 34º Congresso da Nahdlatul Ulama (NU), realizado em Lampung. Em declaração à imprensa, ele afirmou que as acusações são 'infundadas e parte de uma campanha difamatória'.

O ministro da Coordenação da Vida Social, Saifuddin Yahya, conhecido como Gus Ipul, reagiu com veemência às acusações de que teria desviado recursos públicos durante o 34º Congresso da Nahdlatul Ulama (NU), realizado em dezembro de 2024 em Lampung. Em declaração à imprensa na última segunda-feira, ele classificou as alegações como 'pura fitna' (calúnia, em árabe), afirmando que os valores repassados pelo governo federal à organização islâmica seguiram estritamente os trâmites legais e foram destinados a custear a logística do evento, incluindo transporte, alimentação e infraestrutura.

A controvérsia ganhou força após a publicação de um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) apontando possíveis irregularidades na prestação de contas do evento, que recebeu cerca de R$ 15 milhões do Ministério do Desenvolvimento Social. O órgão de controle questionou a ausência de notas fiscais detalhadas para parte dos gastos, especialmente com serviços de bufê e locação de tendas. Gus Ipul, que na época era ministro do Desenvolvimento Social, negou qualquer envolvimento direto na execução orçamentária, ressaltando que a responsabilidade pela organização do congresso era da própria NU, não do governo.

Em sua defesa, o ministro afirmou que 'todas as transferências foram feitas via convênio, com acompanhamento de órgãos de controle interno e externo'. Ele também lembrou que o congresso da NU é um dos maiores eventos religiosos do país, reunindo mais de 120 mil participantes, e que o apoio financeiro do Estado é uma prática consolidada para eventos de grande porte. 'Se houve falha na prestação de contas de algum fornecedor, isso é responsabilidade da organização do evento, não do governo', disse, citando que a própria NU já abriu uma sindicância interna para apurar os fatos.

A oposição, no entanto, não aceitou a explicação. O deputado federal Fábio Ostermann (Novo-RS), em entrevista à Rádio Gaúcha, afirmou que 'o caso é sintomático da promiscuidade entre Estado e organizações religiosas'. Para ele, o uso de dinheiro público para financiar eventos de entidades privadas, mesmo que de grande relevância social, 'viola o princípio da laicidade e alimenta a corrupção sistêmica'. Ostermann protocolou um requerimento na Câmara pedindo que o TCU detalhe todos os repasses feitos à NU nos últimos cinco anos.

Por outro lado, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) saiu em defesa de Gus Ipul, classificando as acusações como 'tentativa de criminalizar a fé e as organizações comunitárias'. Em nota oficial, o parlamentar afirmou que 'a NU é uma das maiores redes de assistência social do país, e o apoio do Estado é legítimo quando bem fiscalizado'. Ele também lembrou que o congresso da NU não é um evento privado, mas uma assembleia deliberativa que define rumos de políticas públicas em áreas como educação e saúde.

A polêmica expõe um dilema recorrente no Brasil: até que ponto o Estado deve financiar eventos de entidades privadas, ainda que de relevância social? Sob a ótica liberal-conservadora, a resposta é clara: o Estado não deve ser o fiador de eventos religiosos ou partidários, independentemente de sua importância cultural. O dinheiro do contribuinte é escasso e deveria ser priorizado para serviços essenciais — saúde, segurança, infraestrutura —, não para custear bufês e tendas de congressos, por mais grandiosos que sejam. A laicidade estatal não é apenas um princípio jurídico; é uma salvaguarda contra o uso eleitoreiro da máquina pública.

No entanto, é preciso separar o joio do trigo. A acusação de que Gus Ipul teria se apropriado de recursos públicos não foi comprovada até o momento. O TCU apontou falhas documentais, não desvio de finalidade. Enquanto a sindicância interna da NU e a auditoria do órgão de controle não concluírem, qualquer julgamento antecipado é, no mínimo, precipitado. A 'fitna' denunciada pelo ministro pode ser real, mas a exigência de transparência total por parte do Estado também é legítima. O que não se pode aceitar é que o caso seja usado como moeda de troca política, seja para blindar aliados, seja para destruir adversários.

O episódio também levanta um questionamento mais amplo sobre o modelo de financiamento de eventos no Brasil. Se a NU precisa de R$ 15 milhões para realizar seu congresso, por que não buscar patrocínio privado ou cobrar inscrição dos participantes, que em sua maioria são filiados com renda estável? A resposta é simples: porque o Estado brasileiro, historicamente, se acostumou a servir de 'caixa eletrônico' para organizações de todos os matizes, da esquerda à direita, do MST à CNBB. O liberalismo conservador que defendemos prega exatamente o oposto: menos Estado, mais sociedade civil autônoma, com financiamento voluntário e transparente.

Enquanto o TCU não emite parecer definitivo, o que se sabe é que o governo federal já destinou mais de R$ 40 milhões à NU desde 2023, segundo dados do Portal da Transparência. Desses, R$ 15 milhões foram para o congresso de Lampung. A pergunta que fica é: quantos leitos de UTI, quantas escolas técnicas, quantos quilômetros de rodovia poderiam ser construídos com esse montante? A resposta é desconcertante para qualquer contribuinte que acompanha a precariedade dos serviços públicos no país.

A postura de Gus Ipul, ao chamar as acusações de 'fitna', é compreensível do ponto de vista político — ele é um quadro histórico do PT e aliado do governo Lula. Mas, do ponto de vista institucional, a defesa deveria ser mais robusta: apresentar documentos, listas de fornecedores, comprovantes de execução. Em vez disso, o ministro optou por um discurso de vitimização, que pode até acalmar seus apoiadores, mas não responde às perguntas objetivas do TCU. A credibilidade de uma autoridade pública se mede pela transparência de seus atos, não pela retórica de perseguição.

O caso também expõe a fragilidade do sistema de convênios no Brasil, que historicamente é uma das principais portas de entrada para a corrupção. A reforma administrativa, defendida por nós há anos, deveria incluir a extinção dos convênios com entidades privadas sem fins lucrativos, substituindo-os por editais públicos com critérios objetivos e prestação de contas em tempo real. Enquanto isso não ocorre, casos como o do congresso da NU continuarão a gerar desconfiança e alimentar o cinismo popular.

Por fim, é importante ressaltar que a NU é uma instituição centenária, com papel relevante na educação islâmica e na assistência social na Indonésia. Nada aqui é um ataque à organização ou à fé islâmica. A crítica é direcionada ao modelo de financiamento público que, independentemente da boa-fé dos envolvidos, corrói a eficiência do Estado e abre margem para abusos. O contribuinte brasileiro, que já paga uma das cargas tributárias mais altas do mundo, tem o direito de saber exatamente como cada centavo é gasto — e de exigir que eventos de entidades privadas sejam custeados por seus próprios membros, não pelo erário.

Enquanto isso, a investigação segue. O TCU deve apresentar seu relatório final nos próximos meses. Gus Ipul, que nega qualquer irregularidade, prometeu colaborar com as investigações. Resta saber se a 'fitna' denunciada por ele se dissipará ou se os documentos revelarão algo além de falhas formais. Até lá, a imprensa deve manter o olhar crítico, sem transformar acusação em condenação, mas também sem transformar defesa em absolvição.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.