A BP BUMN (Badan Pengelola Badan Usaha Milik Negara), o órgão que supervisiona as estatais indonésias, anunciou em setembro de 2026 a terceira fase do plano de transformação corporativa das empresas controladas pelo governo. O foco declarado é a "melhoria contínua" — um conceito que, na prática, significa cortar desperdícios, profissionalizar a gestão e, acima de tudo, parar de tratar estatais como cabides de emprego político.
O plano, detalhado em comunicado oficial da BP BUMN no dia 15 de setembro, estabelece metas claras de eficiência operacional para 47 empresas estatais, que vão desde a gigante de energia Pertamina até a holding de construção Waskita Karya. A novidade? Pela primeira vez, os bônus dos diretores serão atrelados a indicadores de produtividade e redução de custos, não a metas políticas ou de expansão territorial.
Para entender a magnitude da mudança, é preciso contextualizar: a Indonésia, sob a presidência de Prabowo Subianto, manteve a linha reformista iniciada por Joko Widodo. O país, que já foi sinônimo de corrupção endêmica em estatais, agora adota um modelo que combina controle estatal com disciplina de mercado. A BP BUMN, criada em 2016, passou de um órgão burocrático para uma holding de fato, que consolida balanços, unifica compras e exige rentabilidade mínima de cada subsidiária.
O resultado? Dados do Ministério das Finanças indonésio, divulgados em agosto de 2026, mostram que as estatais sob gestão da BP BUMN reduziram seu endividamento em 12% nos últimos dois anos, enquanto a receita agregada cresceu 8,3%. Mais impressionante: o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) médio subiu de 4,2% em 2024 para 7,1% em 2026. Números que qualquer gestor privado consideraria modestos, mas que representam uma revolução silenciosa no setor público asiático.
Por que isso importa? Porque o Brasil, que insiste em manter estatais como Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil sob lógica política, poderia aprender com o modelo indonésio. Aqui, a cada troca de governo, as estatais viram instrumento de política fiscal disfarçada: segurar preços de combustíveis para agradar eleitorado, contratar apadrinhados em cargos de diretoria, e subsidiar ineficiências com dinheiro do contribuinte. Na Indonésia, a BP BUMN age como um fundo soberano corporativo: exige dividendos, demite gestores incompetentes e fecha subsidiárias que não se sustentam.
A análise FORTIS é direta: o modelo indonésio não é perfeito — ainda há subsídios cruzados e protecionismo setorial — mas representa um avanço concreto em relação ao estatismo predatório que domina a América Latina. Enquanto governos de esquerda na região defendem que "estatal não precisa dar lucro", a BP BUMN prova que eficiência e controle estatal não são antagônicos. O segredo? Profissionalização da gestão e, acima de tudo, a coragem de cortar na carne.
Contraponto necessário: críticos do modelo, como o economista indonésio Faisal Basri, em artigo no jornal Kompas de agosto de 2026, apontam que a reestruturação tem custo social elevado, com demissões em massa e fechamento de unidades em regiões pobres. O argumento tem mérito: a Pertamina, por exemplo, fechou 12 refinarias antigas, demitindo 8 mil funcionários. Mas o dado que contradiz a narrativa é que o desemprego na Indonésia caiu de 5,8% para 5,1% no mesmo período, puxado pelo setor privado. Ou seja: a realocação de mão de obra funcionou, ainda que com sofrimento localizado.
Outro ponto: a BP BUMN tem sido acusada de falta de transparência em licitações, com suspeitas de favorecimento a empresas ligadas ao partido no poder. Em resposta, o órgão publicou em julho de 2026 uma plataforma online com todos os contratos assinados por estatais, permitindo auditoria pública em tempo real. A iniciativa, embora tardia, mostra que a pressão por accountability funciona — e que o mercado regula melhor que burocratas.
Por Renan Filho · 2026-09-23