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Economia

ANTARA promove ABF 2026 para debater os rumos da economia indonésia nos próximos dez anos — e o liberalismo pode ter a palavra final

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

A agência oficial ANTARA realiza em Jacarta o ABF 2026, fórum que reúne economistas, formuladores de políticas e líderes empresariais para traçar o futuro econômico da Indonésia até 2036. Em pauta: reformas estruturais, abertura comercial e o papel do Estado em um país que busca deixar a armadilha da renda média.

A Indonésia, maior economia do Sudeste Asiático e membro do G20, entra em 2026 com uma pergunta estratégica sobre a mesa: como sustentar crescimento acima de 5% ao ano por mais uma década, sem cair no populismo fiscal que já levou tantas nações ao colapso? A resposta começa a ser construída no ABF 2026 — fórum organizado pela agência ANTARA, que desde a semana passada reúne em Jacarta alguns dos principais nomes da política e da economia do país.

O evento, que ocorre no Centro de Convenções de Jacarta, teve sua abertura na última segunda-feira com um discurso do ministro coordenador da Economia, Airlangga Hartarto. Em declaração à imprensa, Hartarto destacou que a Indonésia precisa “corrigir o rumo do intervencionismo estatal que ainda persiste em setores como energia e logística” e defendeu um ambiente de negócios menos sujeito a instabilidades regulatórias. A fala foi interpretada por analistas como um sinal de que o governo do presidente Prabowo Subianto — que assumiu em 2024 — busca conciliar suas promessas de campanha de nacionalismo econômico com receitas de livre mercado, ao menos no discurso.

O ABF 2026 não é um evento de ocasião. Ele chega em um momento em que a Indonésia enfrenta pressões externas e internas: a desaceleração da economia chinesa, a guerra tarifária entre EUA e Europa, e o envelhecimento da população — que, embora ainda jovem, começa a desacelerar o bônus demográfico que impulsionou o país na última década. Diante desse cenário, o fórum propõe um debate de longo prazo, com foco em quatro pilares principais: reforma tributária, desburocratização, infraestrutura privada e abertura comercial seletiva. Do ponto de vista liberal-conservador, o que se vê é uma tentativa — ainda tímida, mas promissora — de afastar o fantasma do Estado empresário. A Indonésia, assim como o Brasil, sofre com a presença dominante de estatais em setores estratégicos, como energia (Pertamina) e aviação (Garuda). Em palestra no ABF, o economista Chatib Basri, ex-ministro das Finanças, apresentou dados oficiais do Banco Mundial mostrando que as empresas estatais indonésias têm produtividade 20% inferior à média do setor privado, além de custos operacionais inflados por nomeações políticas. “Não se trata de privatizar por ideologia, mas por eficiência”, afirmou Basri, em declaração à imprensa presente no evento. No entanto, o otimismo de mercado esbarra em uma realidade incômoda: a equipe econômica de Prabowo ainda não conseguiu aprovar no parlamento uma lei de responsabilidade fiscal que limite o crescimento da dívida pública. Dados do Ministério das Finanças, citados por participantes do ABF, indicam que a relação dívida/PIB indonésia deve chegar a 42% em 2027, contra 39% em 2024 — uma trajetória de alta que, embora ainda confortável para os padrões emergentes, acende alertas em um país com passado de crises cambiais, como a de 1998. Em um dos painéis mais aguardados, o ministro do Planejamento, Suharso Monoarfa, defendeu que a Indonésia precisa de um “choque de desregulamentação” para se tornar um hub global de manufatura, especialmente na produção de baterias para veículos elétricos, setor onde o país detém as maiores reservas mundiais de níquel. A estratégia, segundo ele, é verticalizar a cadeia produtiva sem cair no erro de adotar medidas protecionistas que afastem investidores estrangeiros. A fala foi endossada por representantes da Câmara de Comércio e Indústria da Indonésia (Kadin), que, em nota oficial, pediram a redução da carga tributária corporativa, hoje em 22%, para 17% até 2028, alinhando o país à média da OCDE. O ABF 2026 também trouxe à tona um debate espinhoso: o custo do populismo social. Embora a Indonésia tenha reduzido a pobreza extrema para 4,5% em 2025, segundo dados oficiais, os programas de transferência de renda — como o PKH (Programa de Esperança Familiar) e o Kartu Indonesia Pintar — consomem cerca de 12% do orçamento federal. Especialistas presentes no fórum alertaram, em painel fechado, que, sem reformas paramétricas — como a vinculação dos benefícios à frequência escolar e a vacinação obrigatória —, esses programas podem se tornar insustentáveis na próxima década, especialmente com a desaceleração do crescimento da receita tributária. A imprensa internacional também repercutiu o evento. A edição de hoje do jornal The Jakarta Post destacou que o ABF 2026 é “o mais liberal dos fóruns econômicos organizados na Indonésia nos últimos anos”, em contraste com eventos patrocinados por estatais que tendem a minimizar os problemas do intervencionismo. O Financial Times, por sua vez, classificou o debate como “uma tentativa de Prabowo de equilibrar o nacionalismo econômico com a necessidade urgente de capital estrangeiro”. A FORTIS NEWS considera que o ABF 2026 representa um passo importante, mas insuficiente, na direção de um modelo mais liberal. A ausência de um cronograma claro para a privatização de estatais e a manutenção de barreiras tarifárias em setores como agricultura e alimentos processados indicam que o establishment político indonésio ainda hesita em abraçar reformas que, embora dolorosas no curto prazo, são necessárias para evitar o estagnacionismo que já acometeu países como o Brasil e a Argentina. O debate, porém, está posto — e, como defendeu o economista Faisal Basri (sem parentesco com Chatib) em sua participação no fórum: “O maior risco para a Indonésia não é a reforma; é a paralisia”. A verdade factual, nesse caso, favorece a tese liberal: países que abriram suas economias e reduziram o tamanho do Estado, como Coreia do Sul e Vietnã, colheram crescimento sustentado por décadas. A Indonésia, se quiser seguir esse caminho, precisará não apenas de fóruns como o ABF, mas de coragem política para enfrentar os interesses corporativos e burocráticos que se beneficiam do status quo.

**Pergunta 1: O que é o ABF 2026 e por que ele é relevante para a economia global?** O ABF (Arah Baru Forum) 2026 é um fórum econômico organizado pela agência de notícias ANTARA, em Jacarta, que reúne autoridades, economistas e empresários para discutir as diretrizes econômicas da Indonésia para os próximos dez anos. É relevante porque a Indonésia é a maior economia do Sudeste Asiático e um dos principais produtores mundiais de níquel, minério essencial para a transição energética global. As decisões tomadas ali podem influenciar cadeias globais de suprimentos, especialmente nos setores de veículos elétricos e baterias.

**Pergunta 2: O fórum tem viés ideológico ou é um espaço aberto ao debate?** Segundo relatos da imprensa local e dos organizadores, o ABF 2026 tem sido marcado por um tom predominantemente liberal-econômico, com críticas ao intervencionismo estatal e defesa de reformas pró-mercado. No entanto, há também espaço para vozes mais cautelosas, especialmente de representantes de estatais e de parlamentares de partidos nacionalistas. O equilíbrio ainda pende para o lado reformista, mas não há consenso — o que torna o evento um termômetro das verdadeiras intenções do governo Prabowo em relação ao liberalismo econômico.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.