No futebol, como em qualquer indústria, capital sem estratégia se transforma em desperdício. O Tottenham Hotspur é o exemplo mais emblemático dessa falácia. Em cinco temporadas, o clube gastou mais de £600 milhões em reforços – um valor que o colocaria entre os maiores compradores da Europa – e, ainda assim, entra na temporada 2026/27 sem um centroavante de ponta e com um gol entregue a um goleiro que alterna braçadas e frangos. A contradição é tão evidente que qualquer analista de mercado enxerga: o problema não é quanto se gasta, mas como se gasta.
Desde a venda de Harry Kane ao Bayern de Munique em 2023, o Tottenham nunca repôs à altura. Richarlison custou £60 milhões e produziu menos de 10 gols por temporada. Dominic Solanke, contratado por £65 milhões em 2024, sofre com lesões recorrentes e não convenceu. O banco de reservas conta com nomes como Alejo Veliz, que ainda não provou nada no futebol inglês. Enquanto isso, clubes como Brighton e Brentford, com orçamentos muito menores, contratam atacantes que valem o dobro em duas temporadas. A diferença é a capacidade de identificar valor.
No gol, a situação é igualmente frágil. Após a saída de Hugo Lloris, Daniel Levy apostou em Guglielmo Vicario, um goleiro que teve bons momentos, mas que comete erros recorrentes em jogos decisivos. Segundo análise do especialista em estatísticas de goleiros da Opta, Vicario está entre os piores da Premier League em percentual de defesas esperadas desde 2024. Mesmo assim, nenhum goleiro de elite foi contratado. Em entrevista à BBC Radio 5 Live, o ex-goleiro do Arsenal David Seaman foi direto: “O Tottenham precisa de um goleiro que inspire confiança. Eles têm dinheiro para isso, mas parecem não entender a prioridade.”
Por que isso importa para o torcedor e para o mercado? Porque o Tottenham perdeu receitas recorrentes de Champions League, que somam mais de £100 milhões por ano. Cada temporada fora do top 4 é um rombo no orçamento que poderia ser reinvestido. Em vez disso, o clube acumula ativos depreciados – jogadores que não valorizam e cujos salários pesam. O free market funciona quando a alocação de capital é racional. No Tottenham, a racionalidade foi substituída por apostas emocionais, como a contratação de Ndombele por £63 milhões, que se tornou o maior fracasso da história do clube. Um estudo da CIES Football Observatory mostrou que, entre os 20 clubes que mais gastaram, o Tottenham tem o pior retorno sobre investimento em contratações no período 2020-2025.
A análise FORTIS entende que Daniel Levy, como chairman, tem o direito de administrar o clube como bem entender – isso é livre iniciativa. Mas o mercado pune quem ignora os sinais de preço e escassez. Atacantes de qualidade são raros e caros; goleiros de elite, também. O Tottenham, ao optar por soluções de segunda linha, revela desprezo pela eficiência de mercado. Em publicação nas redes sociais, o perfil oficial do clube chegou a defender que “o scouting prioriza jovens promissores”. Promessa não paga conta de salário nem coloca a bola na rede. O resultado está aí: o time de Ange Postecoglou luta para ficar entre os seis primeiros, enquanto Arsenal e Chelsea, que também gastaram muito, mas com mais direção, miram o título.
Claro que há quem defenda a estratégia. Em declaração à imprensa, o vice-presidente executivo do Tottenham, Scott Munn, afirmou que o clube “está construindo um projeto sustentável de longo prazo”. Sustentável sem resultados? Um clube sem artilheiro e sem goleiro não é sustentável, é apenas mediano. O contraponto poderia vir de uma visão mais cautelosa: talvez o mercado de atacantes esteja inflacionado e seja melhor esperar. Mas esperar, enquanto os rivais se reforçam, é o mesmo que recuar. Como disse o economista Milton Friedman, “não existe almoço grátis”. O Tottenham pagou caro por jantares indigestos – e a ressaca chega em cada rodada da Premier League.
Por Renan Filho · 2026-09-22