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Europa regista número recorde de casos de Febre do Nilo Ocidental e Reino Unido reforça vigilância

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-20

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças reportou a época mais ativa de sempre do vírus do Nilo Ocidental no continente, com transmissão local em múltiplos países. Autoridades de saúde britânicas intensificam monitorização e apelam à prevenção individual.

**Lead**

A Europa está a enfrentar a época mais severa de sempre do vírus do Nilo Ocidental, com um número sem precedentes de casos humanos registados em países do sul e centro do continente durante o verão de 2026. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) confirmou a transmissão local do vírus em pelo menos uma dúzia de países da União Europeia e do Espaço Económico Europeu, ultrapassando todos os totais anuais anteriores desde que a vigilância coordenada começou. No Reino Unido, embora não tenha sido confirmado nenhum caso de transmissão autóctone até à data, a Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA) elevou o nível de alerta e reforçou a vigilância em aves migratórias e em mosquitos no sudeste de Inglaterra, preparando-se para um possível aparecimento do vírus em território britânico.

**Contexto**

O vírus do Nilo Ocidental é um flavivírus transmitido principalmente por mosquitos do género Culex. A infecção é assintomática na maioria dos casos, mas cerca de uma em cada cinco pessoas infetadas desenvolve febre, dores de cabeça e fadiga. Em casos mais raros — menos de 1% — o vírus pode causar complicações neurológicas graves, como encefalite ou meningite, com risco de sequelas permanentes ou morte. O ciclo natural do vírus ocorre entre aves selvagens e mosquitos, mas os humanos e outros mamíferos podem ser infetados como hospedeiros acidentais.

Historicamente, o vírus era encontrado sobretudo em África, no Médio Oriente e em partes da Ásia. No entanto, nas últimas duas décadas, o aquecimento global e o aumento de viagens internacionais facilitaram a expansão do mosquito vetor para novas regiões da Europa. Países como Itália, Grécia, Espanha e Hungria têm registado surtos quase todos os verões, mas o volume de casos notificado em 2026 é qualitativamente diferente. O ECDC sublinhou que as condições meteorológicas excecionais — com ondas de calor prolongadas e secas seguidas de chuvas intensas — criaram ambientes ideais para a reprodução dos mosquitos e para a amplificação do vírus em aves.

No Reino Unido, o risco de transmissão autóctone foi durante muito tempo considerado baixo devido às temperaturas mais frescas. Contudo, estudos recentes da UKHSA indicam que o mosquito Culex modestus, um vetor competente para o vírus, já está estabelecido em várias zonas húmidas do sul de Inglaterra, incluindo o estuário do rio Thames e partes de Essex e Kent. A agência capturou mosquitos que testaram positivo para o vírus em armadilhas de vigilância em anos anteriores, embora nenhuma infeção humana tenha sido confirmada até à data em território britânico.

**Análise**

A situação na Europa continental deve funcionar como um alerta sério para o Reino Unido. O facto de o vírus estar agora ativo em países que partilham rotas migratórias de aves com as Ilhas Britânicas aumenta significativamente a probabilidade de introdução do patogeno em território nacional. As aves infetadas podem transportar o vírus por centenas de quilómetros durante a migração de outono, e os mosquitos britânicos já demonstraram capacidade de transmitir o vírus em condições laboratoriais. A UKHSA reconheceu, em documentos internos divulgados recentemente, que a inevitabilidade de um caso autóctone no Reino Unido é agora uma questão de tempo, não de possibilidade.

O impacto potencial de um surto no Reino Unido seria considerável. O Serviço Nacional de Saúde (NHS) não tem experiência clínica significativa no diagnóstico de febre do Nilo Ocidental, e os testes laboratoriais específicos estão concentrados em apenas dois centros de referência no país. Um surto súbito poderia sobrecarregar o sistema de saúde, especialmente em regiões como Este de Inglaterra, onde a densidade de mosquitos vetores é mais elevada. Além disso, a sazonalidade do vírus — com pico de transmissão entre julho e outubro — coincide com o período de maior pressão sazonal sobre os serviços de urgência hospitalar.

**Análise**

A resposta do Reino Unido até ao momento tem sido prudente, mas talvez insuficiente. A UKHSA lançou uma campanha de sensibilização dirigida a profissionais de saúde em zonas de risco, reforçou os programas de vigilância entomológica e colabora com autoridades locais na gestão de zonas húmidas. No entanto, faltam medidas preventivas de maior escala, como o tratamento larvicida sistemático de corpos de água estagnados ou campanhas públicas de informação sobre repelentes e vestuário protetor. Em países como Itália e Grécia, onde os surtos são recorrentes, estas intervenções são parte integrante da rotina anual de saúde pública.

Outro fator que merece atenção é a segurança das reservas de sangue. Em países com transmissão ativa do vírus, os serviços de transfusão implementam triagem de dadores que viajaram para zonas de risco. O NHS Blood and Transplant já aplica regras semelhantes para outros vírus transmitidos por mosquitos, como o dengue e o zika, mas a especificidade do Nilo Ocidental exige uma atualização das orientações. A janela de silêncio recomendada para dadores que visitaram regiões afetadas é de 28 dias, mas a adesão depende de informação clara e atualizada aos dadores.

**Fontes**

As informações desta notícia baseiam-se em relatórios públicos do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), na página oficial de vigilância da Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA), em comunicados do Serviço Nacional de Saúde (NHS) e em estudos académicos publicados em revistas de referência na área de virologia e entomologia médica. Os dados sobre a atividade do vírus na Europa são provenientes do Sistema Europeu de Vigilância (TESSy), ao qual o Reino Unido tem acesso mesmo após a saída da União Europeia.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.