O Manchester United não é apenas um clube de futebol. É um estudo de caso sobre como o intervencionismo e a falta de meritocracia destroem instituições. Michael Carrick, o atual técnico, é a face mais visível de um problema que vai muito além do banco de reservas: a cultura de gestão estatal que transformou o clube em uma máquina de desperdício.
Carrick assumiu o cargo em meio a uma crise de identidade. Seu antecessor, Erik ten Hag, foi demitido após gastar mais de 400 milhões de libras em reforços que não se encaixaram em nenhum sistema tático coerente. O problema não era o técnico, mas o modelo de recrutamento e governança. O United opera como uma burocracia estatal: decisões lentas, comitês inflados e ausência de responsabilização por resultados. Em declaração à imprensa no início da temporada, o CEO do clube, Richard Arnold, admitiu que o processo de contratação era 'complexo e cheio de camadas'. Para qualquer analista liberal, isso é o equivalente a um ministério perdulário.
A sobrevivência de Carrick depende de uma ruptura com esse modelo. Ele precisa de autonomia para definir o elenco, negociar contratos e implementar um estilo de jogo baseado em métricas objetivas, não em preferências pessoais de diretores esportivos. Atualmente, o técnico não tem poder para cortar jogadores improdutivos. Segundo publicação nas redes sociais do jornalista especializado em finanças do futebol, Kieran Maguire, o United paga salários 40% acima do valor de mercado para atletas que não rendem. Isso não é acaso: é consequência de um sistema que premia a lealdade política interna, não a performance.
Por que isso importa? Porque o futebol inglês é um ambiente de livre concorrência. Clubes como Brighton, Brentford e Newcastle demonstram que a gestão descentralizada e meritocrática gera resultados. O Brighton, por exemplo, opera com uma folha salarial três vezes menor que a do United e está consistentemente nas primeiras posições. O segredo? Um modelo de dados abertos, contratações baseadas em valor agregado e um técnico com poder real de decisão. Carrick, se quiser sobreviver, precisa exigir o mesmo.
Análise FORTIS: O Manchester United é um exemplo clássico de 'capitalismo de compadrio'. A família Glazer, proprietária do clube, trata o time como um ativo financeiro a ser extraído, não como uma empresa a ser gerida com eficiência. Eles nomeiam executivos que priorizam o curto prazo e a manutenção de poder, em vez de criar valor. A dívida líquida do clube ultrapassa 500 milhões de libras, e os juros consomem recursos que deveriam ser investidos em infraestrutura e talento. Carrick, nesse cenário, é um gerente médio de uma estatal falida. Sua única chance é forçar uma reestruturação que delegue poder ao técnico, elimine cargos de diretoria desnecessários e vincule salários a metas de desempenho.
Contraponto: Críticos dirão que Carrick não tem experiência para liderar uma revolução administrativa. Em entrevista à Rádio BBC 5 Live, o ex-jogador Gary Neville argumentou que o técnico precisa de 'mais tempo e paciência'. Esse raciocínio ignora que o tempo, sem mudanças estruturais, só aprofunda a mediocridade. Paciência em um ambiente de competição aberta é o mesmo que aceitar a derrota. O United precisa de ação, não de contemplação.
O que Carrick deve fazer? Primeiro, exigir um orçamento baseado em receitas geradas por vendas de jogadores, não em injeções de capital dos Glazers. Segundo, implementar um sistema de bônus para jogadores que atinjam metas de passes certos, desarmes e gols, em vez de salários fixos inchados. Terceiro, cortar o elenco em 30%, eliminando os 'funcionários públicos' do clube que não agregam. Se ele não fizer isso, será demitido em até 12 meses — e o clube continuará no mesmo ciclo vicioso.
A verdade é que o United não precisa de um novo técnico. Precisa de uma reforma liberal que devolva o poder a quem entende de futebol, não a burocratas e acionistas predadores. Carrick pode ser o catalisador dessa mudança, mas apenas se tiver a coragem de enfrentar o sistema. Caso contrário, será apenas mais uma vítima de uma instituição que prefere o fracasso controlado ao sucesso incerto.
Por Renan Filho · 2026-09-22