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Economia

Papa em Paris: estado aumenta oferta de transporte em 10% — mas demanda real pode ser o dobro

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

O governo francês anuncia acréscimo de 10% na capacidade de trens e metrôs na região metropolitana para a visita papal. Um número que soa insuficiente para liberais que apontam falhas de planejamento estatal e soluções de mercado ignoradas.

A visita do Papa Francisco a Paris, marcada para o próximo mês, já provoca um dos maiores testes logísticos para o sistema de transporte público da Île-de-France desde a Jornada Mundial da Juventude de 1997.

O governo regional, em parceria com a SNCF e a RATP, anunciou nesta quarta-feira que aumentará a oferta de trens, metrôs e ônibus em 10% durante os três dias do evento. A informação foi confirmada em nota oficial divulgada pela Prefeitura de Paris.

Segundo a nota, a medida inclui reforço de 15 trens adicionais por hora nas linhas A e B do RER, além de aumento na frequência das linhas de metrô 1, 4 e 14, que dão acesso direto aos locais onde o Pontífice celebrará missas campais.

O número parece generoso em um primeiro olhar. Mas, para analistas de livre mercado, trata-se de uma resposta tímida diante do que se espera ser uma multidão de pelo menos 500 mil pessoas circulando simultaneamente entre a Praça da Bastilha e o Hôtel des Invalides.

A Prefeitura de Paris estima que entre 400 mil e 600 mil fiéis participarão dos eventos religiosos. Em publicação nas redes sociais, o secretário de Transportes da Île-de-France, Marc Guillaume, afirmou que “o aumento de 10% na oferta garantirá que todos possam se deslocar com segurança e conforto”. A declaração foi feita em entrevista à rádio France Info.

Entretanto, dados históricos mostram que, em eventos de grande porte como a Eurocopa de 2016 e o show da banda U2 no Stade de France, a demanda por transporte público em horários de pico saltou entre 35% e 50%. A conta não fecha.

Para economistas liberais costumam apontar que o planejamento estatal de transportes sofre de um viés de subestimação crônica da demanda. Quando o Estado decide a “oferta ideal”, geralmente ignora os sinais de preço e a elasticidade da demanda.

O vereador liberal de Paris, Pierre Gattaz (independente), declarou em entrevista à Rádio BFM que “a solução não é mais burocracia, mas sim permitir que motoristas particulares, aplicativos de transporte e vans privadas operem sem restrição durante o evento”. Ele defendeu a suspensão temporária das taxas sobre corridas de Uber e a liberação de faixas exclusivas para veículos com mais de três passageiros.

Segundo Gattaz, “se cada carro que cruzar Paris durante a visita papal puder levar um estranho por aplicativo, a capacidade total de transporte da cidade dobra sem gastar um euro do contribuinte”. A declaração foi repercutida pelo jornal Le Figaro.

O governo, por sua vez, rejeitou a proposta. Em nota, o Ministério dos Transportes afirmou que “medidas extraordinárias de desregulamentação podem comprometer a segurança e a fluidez do trânsito em áreas sensíveis”.

O argumento é frágil. Em cidades como Londres e Nova York, durante eventos de grande porte, as autoridades locais permitiram a suspensão temporária de limites de licenciamento para táxis e vans particulares, resultando em menor tempo de espera e maior satisfação dos usuários.

O modelo liberal proposto para Paris envolve três pilares: precificação dinâmica de estacionamentos públicos nas bordas da cidade — com tarifas reduzidas para quem chega cedo e sai tarde —, permissão temporária para vans escolares e fretadas operarem como “shuttles” oficiais, e isenção de pedágios urbanos para veículos com mais de três ocupantes.

Nenhuma dessas medidas foi sequer considerada pelo governo regional. Em vez disso, a aposta recai sobre o velho aumento linear de oferta estatal, ineficiente e caro.

A SNCF confirmou que contratará 200 funcionários temporários para operar catracas e dar informações, ao custo estimado de 2,5 milhões de euros. Recurso que poderia ser poupado se o mercado fosse autorizado a operar com mais liberdade.

O custo total do reforço no transporte público, segundo a RATP, será de aproximadamente 8 milhões de euros, bancados integralmente pelos cofres públicos da região, sem contrapartida de receita extra. É o dinheiro do contribuinte parisiense pagando por um serviço que, em tese, deveria se pagar sozinho com o aumento de bilhetes vendidos.

Mas aí está outro dilema: a Prefeitura não planeja elevar o preço das passagens durante o evento, o que significa que o aumento de oferta não gera receita adicional. É uma transferência de renda regressiva — todos pagam, mas quem usa o metrô durante a visita papal se beneficia, mesmo que não arque com o custo real do serviço.

Enquanto isso, empresas privadas de transporte, como Bolt, Heetch e a própria Uber, já se preparam para operar com capacidade máxima. Em contato com a imprensa local, representantes das empresas informaram que planejam aumentar o número de motoristas ativos em 30% durante o evento, independentemente de incentivos públicos.

É o mercado se ajustando à demanda real antes mesmo que o Estado reconheça sua insuficiência.

O contraponto liberal é claro: se o governo tivesse liberado a operação de vans privadas sem licença temporária, o custo de transporte para os fiéis cairia, a oferta aumentaria e a pressão sobre o metrô seria aliviada. Mas, em Paris, a burocracia ainda fala mais alto.

A visita papal é um momento de fé, mas também um teste de eficiência administrativa. Pelo que se vê até agora, o estado francês prefere gastar milhões para manter o controle do que ganhar bilhões em eficiência deixando o mercado agir.

**1. Por que o governo não simplesmente cobra mais caro pela passagem durante o evento, já que a demanda é maior?**

Porque o preço do transporte público na França é politicamente sensível e regulado por lei. Qualquer aumento tarifário extraordinário exigiria autorização do Conselho Regional de Transportes, que dificilmente aprovaria uma medida impopular em ano eleitoral. O resultado é a ineficiência: preço baixo artificialmente, demanda reprimida e necessidade de subsídio público.

**2. Motoristas privados realmente conseguiriam suprir a demanda sem atrapalhar o trânsito?**

Sim, desde que houvesse uma combinação de faixas exclusivas temporárias para veículos com alta ocupação (HOV lanes) e áreas de embarque e desembarque rápidas em pontos estratégicos, como praças e estádios. Em cidades como Istambul e São Paulo, durante eventos religiosos de porte similar, modelos de vans compartilhadas reduziram em até 40% o tempo de deslocamento dos usuários.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.